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Os pobres foram os mais prejudicados pelo efeito inflacionário da crise no transporte rodoviário.

Dados do BC mostram que as saídas líquidas de investimento estrangeiro em carteira no mercado doméstico somaram US$ 12 bilhões no ano passado. (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

 

Os pobres foram os mais prejudicados – como se podia prever – pelo efeito inflacionário da crise no transporte rodoviário. O bloqueio de estradas no fim de maio dificultou a entrega de produtos essenciais, incluídos alimentos, reduzindo a oferta no varejo e esfarelando o orçamento familiar. Sem surpresa, o custo de comida e bebidas puxou a alta dos indicadores oficiais de inflação durante a paralisação dos caminhões e nas semanas seguintes. Em junho, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) subiu 1,26%, na maior variação para o mês desde a taxa de 2,26% em 1995. Esta apuração mostra o impacto na despesa típica das famílias com renda mensal de 1 a 40 salários mínimos. O prejuízo imposto às famílias mais modestas, com renda de 1 a 5 salários mínimos, é mostrado pela evolução do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), com elevação de 1,43%, a mais ampla para o mês também desde 1995 (2,18%).

A variação de preços dos alimentos foi multiplicada por mais de 6 de um mês para outro, pulando de 0,32% em maio para 2,03% em junho, no caso das famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos. O encarecimento de comida e bebida teve um impacto de 0,50 ponto porcentual na formação do índice e foi o principal fator da alta de 1,26% do IPCA. No caso do INPC, o aumento geral de 1,43% foi puxado pelo salto de 2,24% do custo da alimentação (0,29% no mês anterior). A evolução do item alimentos e bebidas teve impacto de 0,67 ponto porcentual na formação do INPC, quase metade da variação total de 1,43%.

A forte pressão iniciada em maio mudou abruptamente a trajetória dos dois indicadores de inflação calculados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). No caso do IPCA, a alta acumulada em 12 meses passou de 2,86% em maio para 4,39% em junho. Durante 13 meses consecutivos, a partir de maio do ano passado, essa taxa havia ficado abaixo de 3%. Na maior parte desse período (11 meses), nem sequer havia batido em 3%.

Nesta fase, a inflação tomada como referência principal pelo governo e pelo BC (Banco Central) foi inferior ao limite mínimo de tolerância fixado pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), 1,5% abaixo da meta anual de 4,5%.

No caso do INPC, a variação em 12 meses passou de 1,76% em maio para 3,53% em junho. Durante 12 meses, a partir de junho do ano passado, a alta acumulada havia sido inferior a 3% e com frequência inferior a 2%. As famílias mais pobres, com renda de até 5 salários mínimos, vinham tendo a rara e preciosa experiência de uma inflação menor que a das camadas médias baixas e médias.

Embora outros fatores tenham contribuído para esse resultado, a inflação moderada para as famílias de rendimento mais modesto refletiu principalmente a evolução favorável dos preços da alimentação. Quem vive com orçamento tão limitado tem quase sempre algum motivo de queixa. Isso é facilmente compreensível. Mesmo com inflação baixa, a alta de preço de qualquer bem ou serviço desarranja os gastos. De toda forma, inflação moderada sempre torna a vida mais fácil, especialmente quando evoluem favoravelmente os preços da alimentação, um item com peso tanto maior quanto menor a renda.

O aumento de preços provocado pela paralisação do transporte pode ser passageiro, como afirmou o gerente da Coordenação de Índices de Preços do IBGE, Fernando Gonçalves. É mais difícil avaliar, neste momento, o impacto da alta do dólar, porque a instabilidade cambial poderá prolongar-se nos próximos meses.

A turbulência no câmbio dependerá de fatores externos, como o conflito comercial entre Estados Unidos e China e a alta dos juros americanos, e internos, associados principalmente à incerteza política.

Seja como for, a inflação ficará neste ano acima das projeções formuladas até há pouco e bem mais próxima da meta de 4,5%. Dirigentes do BC terão de avaliar esses e outros fatores para decidir, a partir de agosto, se os juros voltarão a subir. Mesmo sem juros maiores, a incerteza eleitoral já afeta o ritmo da economia e do emprego. De novo, os mais pobres são os mais prejudicados.

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