O cenário para quem pensa em comprar um carro novo no Brasil é preocupante. A disparada do dólar nas últimas semanas, a queda nos preços do petróleo e o surto do coronavírus deverão fazer o preço do zero quilômetro aumentar, pelo menos, R$ 2.600 em abril.
O coronavírus fez diversas fábricas na China, Japão e Coreia do Sul pararem completamente. Essa estagnação no setor industrial, não só na esfera automotiva, é a maior responsável pela quebra das cadeias internacionais de produção. Sendo assim, veículos e autopeças estão sendo exportados para o Brasil e para o mundo em escala reduzida.
Os três países citados representaram 29% das importações de autopeças do Brasil no ano passado. Sendo que a China – nosso maior importador – representou 13% do total de US$ 13,2 bilhões em peças importadas ao mercado brasileiro. Japão e Coreia, representam 9% e 7%, respectivamente, do valor total.
De acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), esses valores de 2019 têm por base um dólar médio de R$ 4. Em reais, são R$ 52,8 bilhões.
O aumento do câmbio, se for mantido em R$ 0,60 acima da média de 2019, reverterá, no mínimo, em um aumento médio de R$ 2.600 no preço de produção dos carros novos, já nos próximos meses. O aumento no preço final também ficará por aí. Porém, o aumento será definido individualmente pelas montadoras, segundo Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea.
Em importações esse número representaria um acréscimo de US$ 8 bilhões em relação aos valores do ano passado.
O que pode vir a ser muito preocupante, de acordo com a Anfavea, num cenário mais catastrófico, seria a paralisação de algumas fábricas aqui no Brasil, já em abril. O motivo é o travamento nas importações de componentes.
Caso as proporções da pandemia também cresçam no Brasil, o fechamento de fábricas poderá ser inevitável. No País, 22% do PIB industrial é originado no setor automotivo.
“A confiança e a expectativa do consumidor está começando a cair. Está um ambiente não favorável e um aumento no preço médio dos carros novos no Brasil será iminente se o dólar continuar disparando e o coronavírus se proliferando. O aumento médio no carro novo deve ser de R$ 2,6 mil, baseado em uma média do dólar a R$ 4,60”, explica Moraes.
Ele diz que ainda não é o momento para preocupação em relação à paralisação das fábricas em razão do grande estoque de peças das montadoras. Mas devem ter atenção especial, pois há chances disso acontecer.
Se usarmos o preço do carro mais barato do Brasil para ilustrar esse cenário, o Fiat Mobi, que atualmente é vendido por R$ 34.990, com um acréscimo de R$ 2.600 no preço final o modelo passará a custar R$ 37.500.
E o cenário que já estava turbulento ficou ainda pior durante a semana, quando os preços do barril do petróleo caíram em até 30%, a maior queda na cotação desde 1991, com o fim da Guerra do Golfo.
O pivô da crise foi uma decisão da Arábia Saudita, maior exportadora de petróleo do mundo, em retaliação à Rússia.
O país do Leste europeu se recusou a participar de um movimento da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) para reduzir a produção e aumentar os preços, afetados pela desaceleração econômica provocada pela pandemia de coronavírus. Arábia Saudita e Rússia estão travando a “guerra dos preços do petróleo”.
O resultado foi um tombo generalizado nas bolsas pelo mundo, inclusive a Bovespa de forma bastante dura, e também uma desvalorização ainda maior do real, que já se aproxima dos R$ 5,00 – o que pode acelerar ainda mais o processo de aumento nos preços dos carros.
O coronavírus fez o Salão de Genebra, na Suíça, ser cancelado menos de uma semana após a previsão de abertura dos portões. No Brasil, o Salão do Automóvel de São Paulo também foi cancelado e adiado para 2021.
De acordo com as empresas do setor, a decisão foi tomada junto com a Reed, responsável pela organização do evento. Por enquanto, “tudo está na mesa”, como afirmaram os porta-vozes da Anfavea. Há a possibilidade, inclusive que outra cidade no Brasil possa sediar o evento no próximo ano.
