Os prejuízos econômicos causados pela pandemia de covid-19 atingiram em cheio os tenistas brasileiros que tentam se aproximar ou voltar ao Top 100 do ranking. Atletas que já defenderam o Brasil na Copa Davis ou na Fed Cup vêm “queimando” suas poucas economias, buscando apoio da família e lutando para manter seus patrocinadores, quando eles existem. Outros aguardam ansiosamente pela ajuda prometida pelas principais entidades mundiais do tênis, como ATP, WTA e ITF.
O circuito profissional foi paralisado no início de março, às vésperas do Masters 1000 de Indian Wells, nos Estados Unidos. Já são dois meses sem torneios. Na prática, isso significa que eles não podem contar no momento, e até o fim de julho (segundo última decisão das entidades), com sua maior fonte de renda: as premiações, o chamado “prize money”.
“A gente vem sentindo o baque da pandemia, principalmente quanto às premiações. É um dinheiro que eu sempre faço girar. Pago meus técnicos e toda a minha equipe (de quatro pessoas). Eles estão sem receber. É mais prejudicial para eles porque eu ainda posso contar com alguns dos meus patrocinadores, que estão mantendo o benefício”, disse Thiago Monteiro, atual número 1 do Brasil e 82º do mundo, ao Estadão.
A reclamação do atleta, que está em quarentena em Fortaleza, é recorrente. Rogério Dutra Silva, ex-número 63 do mundo e atual 424º, vive situação mais complicada porque esteve afastado do circuito antes da pandemia por lesão e problemas de saúde na família.
“Minha situação está bem complicada. Tenho dois filhos para criar, escola para pagar. Todo mundo quer receber, mas patrocinador não quer ajudar. Estou sem nenhum patrocínio e sem equipe, treinando sozinho e cheio de incertezas”, disse Rogerinho, que tem “queimado” suas economias.
Em dificuldade, ele espera a ajuda das entidades do tênis. Neste mês, a Associação dos Tenistas Profissionais (ATP), a Associação do Tênis Feminino (WTA), a Federação Internacional do Tênis (ITF) e os quatro torneios do Grand Slam anunciaram uma ajuda de US$ 6 milhões (cerca de R$ 35 milhões) aos tenistas. A cifra será dividida igualmente entre homens e mulheres, mas com valores variáveis para 800 jogadores de simples e de duplas. O nome deles ainda não foi divulgado. A distribuição vai levar em conta o ranking atual, com prioridade para os de posições inferiores, e o histórico de premiações.
Rogerinho, João Pedro Sorgi e João Menezes têm boas chances de receber o apoio. Os dois últimos também já defenderam o Brasil na Davis. Sorgi, 646º do mundo, tem situação mais difícil. Completou quase um ano sem jogar neste mês, por conta de lesão. Ou seja, sem obter premiações nos últimos meses, não conseguiu acumular reserva.
Sem patrocínio, vem recorrendo à ajuda dos familiares para seguir treinando em Itajaí (SC). “Sem ‘prize money’, é quase como se estivéssemos desempregados. No meu caso, sempre fui privilegiado por ter suporte financeiro e emocional dos meus pais”, diz o tenista.
Campeão pan-americano em Lima (Peru) e com vaga garantida na Olimpíada de Tóquio (Japão), João Menezes conta com patrocinadores, mas revela que precisou fazer ajustes nos contratos. Além disso, precisou reduzir o pagamento de sua equipe. “Cada um está fazendo os seus ajustes, reduzindo um pouquinho de despesa em áreas não essenciais. Temos que viver de um jeito mais simples desde que a pandemia atingiu todo mundo.”
Já Bia Haddad tem chances remotas de receber o apoio financeiro. “A ajuda provavelmente não inclui jogadores suspensos. Então, provavelmente não faço parte”, diz a número 1 do Brasil, que encerrará a suspensão por doping no fim deste mês.
A punição lhe trouxe diversos prejuízos. De uma tacada só, ela perdeu a chance de contar com as premiações e ainda teve suspensos pagamentos de patrocínio. “Está muito complicada a minha situação porque faz mais de dez meses que não recebo nenhum patrocínio, nem ‘prize money’. Tudo isso foi tirado de mim. Não está entrando nada.”
