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“Os remédios têm papel contra a obesidade, mas com preços abusivos. Queremos que laboratórios públicos dominem a tecnologia”, diz o ministro da Saúde

O percentual da população brasileira adulta com excesso de peso cresceu de 42,6% em 2006 para 62,6%, em 2024. (Foto: Freepik)

O Brasil, um país acima do peso, aguarda com ansiedade a expiração este mês da patente da “alma” das canetas emagrecedoras, a semaglutida transcutânea (Ozempic/Wegovy), o que, se espera, levará a drogas menos caras. O Ministério da Saúde avalia formas de ampliar o acesso aos medicamentos, mas o ministro Alexandre Padilha enfatiza que isso é só parte das políticas públicas necessárias para enfrentar a epidemia de obesidade.

O ministério trabalha com três eixos. O primeiro é a política de prevenção na estratégia “Viva Mais Brasil”; o segundo, a produção nacional e domínio de tecnologia desses remédios; e o terceiro, a implantação da semaglutida no SUS.

Alexandre Padilha revela que o ministério estuda formas de implantar no SUS programas com semaglutida (princípio ativo das canetas), para grupos específicos de pacientes.

Segundo ele, o Grupo Hospitalar Conceição, sediado em Porto Alegre e vinculado ao Ministério da Saúde, elabora um protocolo para um tipo restrito de paciente ter acesso aos medicamentos baseados em semaglutida pelo SUS. Não há nada definido, mas o ministro antecipa que seriam pacientes com obesidade avançada, comorbidades e que estão, por exemplo, na fila para a cirurgia bariátrica.

“Estamos começando a avaliar um protocolo específico para a semaglutida no Rio Grande do Sul”, diz ele.

Outro exemplo de grupo de paciente que seria potencialmente elegível para ser tratado no SUS com as drogas baseadas em semaglutida são aqueles que já recebem orientação clínica e psicológica preparatória para bariátrica e os que sofrem de doenças graves relacionadas à obesidade. Atualmente, nenhum medicamento para controle de peso – com ou sem semaglutida – está disponível no SUS.

Outra estratégia do governo federal em curso é o estímulo à produção nacional dessa nova classe de remédios. Isso é feito por meio de um edital da Anvisa específico para a produção de peptídeos sintéticos. O edital dá prioridade de registro para a liraglutida e a semaglutida, ambas para controle do peso e da diabetes.

Segundo Alexandre Padilha, o Ministério da Saúde quer que o Brasil domine a tecnologia de produção de peptídeos (a grosso modo, pequenas proteínas), que são a base das canetas para emagrecer.

É consenso entre especialistas ser inviável para o sistema público de qualquer país proporcionar amplo acesso a canetas e similares. O motivo é simples. O excesso de peso virou regra e não exceção. E o custo desses remédios é elevadíssimo.

O percentual da população brasileira adulta com excesso de peso cresceu de 42,6% em 2006 para 62,6%, em 2024, segundo o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, o Vigitel.

Já a obesidade (IMC maior que 30), passou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024. Por trás do problema está, sobretudo, a alimentação com base em ultraprocessados.

“Os medicamentos podem ter um papel no enfrentamento da obesidade. Mas os preços são abusivos. É um desafio em todo o mundo. Queremos que laboratórios públicos e empresas nacionais dominem essa tecnologia, uma plataforma não somente para remédios contra a obesidade, mas também para doenças como, por exemplo, câncer. Estamos facilitando o caminho para que empresas produzam aqui liraglutida e semaglutida. Quanto mais empresas, maior a concorrência e menor o preço”, diz Alexandre Padilha.

Já há 14 empresas com pedidos em análise pela Anvisa. E, de acordo com o ministro, três empresas brasileiras assinaram parcerias com empresas indianas para a produção de peptídeos sintéticos.

“Acredito que vamos conseguir derrubar os preços e tornar esses remédios mais acessíveis”, diz o ministro.

Mas o ministro destaca ser fundamental encarar a obesidade como problema de saúde pública grave e não como questão estética.

“É preciso uma resposta integrada a um problema complexo e associado a doenças cardiovasculares e câncer, por exemplo. Não se trata só de acesso a medicamentos”, afirma o ministro.

Ele salienta que é preciso, sobretudo, prevenir a obesidade, evitar que as pessoas ganhem peso em excesso e isso é feito com políticas integradas, não se resume a remédios.

O ministro sublinha a prioridade da estratégia “Viva Mais Brasil”. Ela foi lançada pelo Ministério da Saúde em janeiro, com um investimento de R$ 340 milhões e foco na promoção da alimentação saudável e da atividade física, por meio da atenção primária.

“Nesse sentido, a taxação de bebidas açucaradas e a redução de impostos da cesta básica saudável é importantíssima. Assim como banir ultraprocessados da alimentação escolar. As cidades que fizeram isso viram cair o número de crianças e jovens que consomem ultraprocessados”, enfatiza Alexandre Padilha.

A estratégia do Ministério da Saúde repassará aos municípios recursos para investir em academias da saúde, vinculadas à atenção primária. As informações são do jornal O Globo.

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