Foi a maior luta que a Jéssica já encarou. “Eu queria viver, de verdade, eu fiquei com muito medo de morrer”, desabafa Jéssica Martins, agente comercial. Ela tem 25 anos e ficou 16 dias na terapia intensiva. É um exemplo do que vem acontecendo em todo o país: os pacientes com Covid estão ficando mais tempo nas UTIs. Um levantamento da Associação de Medicina Intensiva Brasileira mostra que o tempo médio de internação subiu de 10 para 14 dias, desde o começo da pandemia.
Enfrentar e vencer a Covid requer tempo. E esse é um dos motivos apontados pelos especialistas para a permanência nas UTIs ter aumentado. Em um ano de pandemia, a medicina avançou, os tratamentos foram aprimorados, e assim, o paciente em estado grave ganhou tempo – e chances – de lutar contra o vírus.
Outra explicação é a mudança no perfil dos pacientes. Agora, há mais jovens intubados do que no começo da pandemia. Normalmente, eles são mais saudáveis e fortes, e resistem mais às complicações causadas pela Covid.
“Esses pacientes sendo também mais saudáveis, eles vão ficar mais tempo, porque o tratamento acaba se prolongando na tentativa de salvar vidas. No caso dos doentes mais graves, eles suportam mais tempo aquelas terapias de suporte avançado de vida numa UTI”, conta Suzana Lobo, presidente da Associação Médica Intensivista Brasileira.
De acordo com Rafael Deucher, presidente de sociedade de terapia intensiva, o período maior de internação causa efeitos na fila de espera por leitos em hospitais: “O fato de ter aumentado a incidência da doença, o número de novos casos por dia, associado ao aumento do tempo de internamento, é um dos responsáveis por essa piora que a gente está enfrentando”.
Guilherme ficou sete meses internado – cinco, só na UTI. Ele chegou a comemorar o aniversário de 36 anos no hospital. Já em casa, ainda debilitado e com a voz fraca, Guilherme faz um alerta: “Não é brincadeira, não é uma chacota, a doença ela é terrível, ela é traiçoeira. Se você pegou tenha fé que vai sair, mas, não é brincadeira”.
Jovens
Por todo o país, profissionais da área de saúde têm narrado o aumento de jovens internados pela covid-19. Embora o percentual de mortes se mantenha maior entre os idosos acima de 60 anos, tem sido cada vez mais comum ver pacientes com menos de 50 anos e sem comorbidades ocupando leitos de UTI (unidade de terapia intensiva).
Em São Paulo, estima-se que o número de pacientes graves até 50 anos tenha subido de 25% a 35% neste ano em relação ao ano passado. Esse aumento, no entanto, não impacta só o paciente. Além de ajudar na transmissão para os mais velhos, quanto mais jovem, maior a resistência no combate ao vírus e maior o tempo de cuidados na UTI.
“Como o jovem tem uma defesa imunológica maior que o idoso, um corpo mais forte, ele luta com a doença e demora muito mais para se salvar ou, eventualmente, morrer. Dessa forma, ele fica mais tempo na UTI”, afirma o infectologista Marcos Boulos, professor da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). Ele diz tratar-se de “matemática simples”: quanto maior o número de jovens internados, menor a rotatividade dos leitos de UTI e maior ocupação do sistema.
