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Painel da ONU diz ser “provável” que o planeta exceda a meta de aquecimento de 1,5°C

Cientistas dizem que existem opções eficazes para se adaptar às mudanças climáticas causadas pelos humanos. (Foto: Alfred Lee/OMM)

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (Ipcc na sigla em inglês) divulgou nesta segunda-feira (20) seu mais recente relatório, apontando que um ano considerado quente para a geração atual, será equivalente a um ano “fresco” para as próximas gerações.

O novo relatório-síntese, que resume as conclusões do sexto ciclo de avaliação promovido pelo grupo, afirma com destaque que é “provável” o planeta exceder a meta de aquecimento de no máximo 1,5°C até 2100.

Essa opinião já era comum entre muitos pesquisadores da área, mas é a primeira vez no último ciclo de avaliações do IPCC, iniciado em 2018, que o painel dá tanto destaque a essa projeção mais pessimista, ao levar em conta as emissões de gases-estufa produzidas até 2021.

A expressão “provável” (“likely”), no linguajar do IPCC, tem um sentido técnico: uma probabilidade de dois terços (66%) de que um fenômeno ocorra.

O limite de aquecimento de 1,5°C da Terra, calculado em relação aos níveis de temperatura da era pré-industrial anterior ao século XIX, é a escolha mais ambiciosa de meta do Acordo de Paris para o clima, inicialmente desenhado para segurar o aumento em 2,0°C.

“As mudanças observadas (1900–2020) e projetadas (2021–2100) na temperatura da superfície global (em relação a 1850–1900), que estão ligadas a mudanças nas condições e impactos climáticos, ilustram como o clima já mudou e mudará ao longo do vida útil de três gerações representativas (nascidos em 1950, 1980 e 2020)”, escrevem os cientistas no relatório. A informação é apresentada em um gráfico com imagens de idosos e bebês, para mostrar como as próximas gerações serão as mais castigadas.

Uma pressão para uma ação mais forte de redução das emissões aumentou nas negociações entre os países depois de o IPCC deixar claro que essa diferença de meio grau entre as metas de 1,5°C e 2,0°C é relevante para a escala de impactos da crise do clima.

O planeta, porém, está muito fora da trajetória de cumprimento dessa meta. Para isso, as emissões de CO2 e outros gases-estufa precisam cair pela metade até o fim dessa década, mas até o ano passado ainda estavam aumentando. Em uma década, a produção desses poluentes aumentou mais de 12% e está hoje beirando a marca de 60 bilhões de toneladas de CO₂ por ano.

O novo relatório do IPCC não traz informação técnica nova sobre a crise do clima, mas permite uma leitura melhor da “temperatura política” na relação entre cientistas e governos, a partir do conhecimento que escolhe destacar. O painel foi projetado para não ser um órgão capaz de prescrever políticas de ação, mas ao deixar mais clara a gravidade de situação, ele chega agora o mais próximo possível disso.

É até raro, por conta disso, que os cientistas mencionem muito as “contribuições nacionalmente determinadas” (NDCs), as promessas oficiais que os governos fazem de cortes de emissão. Mas dessa vez o IPCC vai direto ao ponto.

“As emissões globais de gases-estufa implicadas pelas NDCs anunciadas até outubro de 2021 tornam provável que o aquecimento exceda 1,5°C durante o século 21 e tornam mais difícil limitar o aquecimento abaixo de 2°C”, destaca o texto do relatório, liderado pelo coreano Hoesung Lee. “Existem lacunas entre as emissões projetadas das políticas implementadas e as dos NDCs e os fluxos financeiros ficam aquém dos níveis necessários para atingir as metas climáticas em todos os setores e regiões.”

O secretário-geral da ONU, António Guterres, distribuiu um discurso gravado para comentar o novo relatório do painel, tratando a crise climática como uma “bomba-relógio”.

“Este relatório é um apelo para acelerar maciçamente os esforços climáticos de todos os países e setores, e em todos os prazos. Resumindo, nosso mundo precisa de ação climática em todas as frentes: tudo, em todo o lugar, ao mesmo tempo”, disse o português, fazendo uma referência ao título do filme que ganhou o Oscar de 2023.

Guterres afirma que vai propor uma iniciativa especial ao G20, grupo dos países que constituem as 20 maiores economias do mundo, um plano especial para tentar alavancar medidas de mitigação, batizado de “Pacto de Solidariedade Climática”.

“Nesse plano, todos os grandes emissores fazem esforços extras para cortar emissões, e os países mais ricos mobilizam recursos financeiros e técnicos para apoiar economias emergentes em um esforço comum para manter vivo o objetivo de 1,5°C”, afirma Guterres. As informações são do jornal O Globo.

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