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Para os governadores do Nordeste, a campanha contra a quarentena é um “atentado à vida”

Presidente fez testes nos dias 12 e 17 de março e diz que resultados foram negativos. (Foto: Issac Nóbrega/PR)

Em carta divulgada após uma nova reunião por videoconferência nesta sexta-feira (27), os nove governadores do Nordeste classificaram a iniciativa do governo federal de produzir uma campanha publicitária para enfatizar a necessidade das pessoas voltarem ao trabalho de “verdadeiro atentado à vida”.

Os chefes dos Executivos estaduais da região ainda cobram respeito por parte do presidente da República e dizem que há uma ausência de coordenação nacional na crise provocada pelo coronavírus. Por causa disso, pretendem avançar na integração com as demais regiões  para “salvar vidas e amenizar os impactos negativos sobre a economia”.

“Manifestamos nossa profunda indignação com a postura do governo federal, que contraria a orientação de entidades de reconhecida respeitabilidade, como a OMS – que indicam o isolamento social como melhor forma de conter o avanço do Coronavírus -, e promove campanha de comunicação no sentido contrário, estimulando, inclusive, carreatas por todo o país contra a quarentena. Este tipo de iniciativa representa um verdadeiro atentado à vida”, afirma um dos itens da carta.

Durante a reunião, os governadores decidiram cobrar de Bolsonaro sobre qual é a posição oficial do governo a respeito do isolamento da população. Segundo o governador do Piauí, Wellington Dias, os nove chefes dos Executivos da região decidiram “encaminhar um questionamento para que o governo se defina”.

“Qual é mesmo a posição do governo?”, questionou, Dias. “Há, claramente, um conflito dentro do próprio governo federal. De um lado, posições do Ministério da Saúde e do ministro [Luiz Henrique] Mandetta, que seguem as orientações técnicas e científicas e da Organização Mundial da Saúde (OMS). De outro, o presidente da República, muito mais inclinado para uma posição mais política.”

Os governadores dizem que “com bom senso e equilíbrio, vamos continuar orientados pela ciência e pela experiência mundial, para nortear todas as medidas, diariamente avaliadas, nesta guerra travada contra o coronavírus”. “Reiteramos que parâmetros científicos indicam as ações preventivas e protetivas, de intensidade gradual e estágios progressivos ou regressivos, adequando-as sempre à realidade de cada região de nossos estados.”

Os comandantes dos Estados nordestinos revelam que para embasar as medidas que vierem a tomar solicitarão um pronunciamento oficial do Conselho Federal de Medicina, do Conselho Nacional dos Secretários Estaduais de Saúde e da Sociedade Brasileira de Infectologia, além do acompanhamento e orientação do Ministério Público Federal e do Ministério Público dos Estados.

Também se comprometem a manterem abertos ao diálogo, mas cobram o fim dos ataques por parte do presidente:

“De nossa parte, exigimos respeito por parte da Presidência da República, esperando que cessem, imediatamente, as agressões contra os governadores, assumindo-se um posicionamento institucional, com seriedade, sobre medidas preventivas. A omissão em padronizar normas nacionais e a insistência em provocar conflitos impedem a unidade em favor da saúde pública. Assim agindo, expõe-se a vida da população, além de assumir graves riscos no tocante à responsabilidade política, administrativa e jurídica.”

Os secretários estaduais de Saúde também divulgaram nota para condenar as posições conflitantes do governo sobre o isolamento e defender que o Ministério da Saúde seja o único condutor das medidas.

“Pronunciamentos e orientações conflitantes das autoridades sobre medidas restritivas adotadas no enfrentamento do coronavírus geram intranquilidade e insegurança”, diz o documento.

No documento, eles também defendem as medidas restritivas adotadas por governadores, e afirmam que elas “não se pautam por cores partidárias ou de qualquer outra natureza, e sim por critérios técnicos e científicos observados ao redor do planeta”.

“A doença não escolhe quem atinge. É implacável. Implacáveis e incansáveis devemos ser nós, e o povo brasileiro, contra ela. Quanto mais alto for o pico do coronavírus no Brasil, mais alto será o número de pacientes graves a demandar atendimento médico ao mesmo tempo. O que estiver acima da capacidade assistencial de leitos representará desassistência, e desassistência, neste caso, significará morte.”

Os secretários encerram o texto citando o caso de Milão e afirmam: “Que não tenhamos que nos arrepender mais tarde no Brasil por omissão neste momento. Cada dia de isolamento social importa. Cada vida brasileira importa.”

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