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Para pesquisadores, a criação de factoides ajuda Bolsonaro a mobilizar a militância

Bolsonaro cumprimenta apoiadores: entrevistas coletivas na saída do Palácio da Alvorada têm sido usadas para atacar jornalistas. (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

A cena tem se repetido na saída do Palácio da Alvorada. Sob aplausos de sua claque, o presidente Jair Bolsonaro é questionado pelos jornalistas sobre temas do momento — do resultado do Produto Interno Bruto (PIB) aos desdobramentos da investigação do Ministério Público do Rio envolvendo seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ). A resposta do presidente é disparada na forma de ataques à imprensa ou de declarações não esperadas de quem ocupa o comando do Executivo.

Aparentemente espontânea, a fórmula é uma estratégia que, na avaliação de especialistas, serve a múltiplos propósitos: mobiliza sua base mais fiel nas redes sociais; cultiva a posição antiestablishment adotada por Bolsonaro desde a campanha de 2018; e divide a atenção de notícias negativas para sua gestão e a primeira-família.

No episódio mais recente, Bolsonaro foi ao encontro dos jornalistas na última quarta-feira (4), acompanhado pelo humorista Márvio Lúcio, conhecido como Carioca, que estava fantasiado com terno, peruca e faixa presidencial. Perguntado sobre o resultado do PIB, que segundo o IBGE teve alta de 1,1%, a menor taxa desde o fim da recessão, o presidente fugiu do tema e sugeriu ao humorista responder à imprensa. A cena foi filmada por um ajudante de ordens da Presidência e transmitida nos perfis de Bolsonaro nas redes sociais, onde gerou mais de 5,7 milhões de visualizações até a última sexta-feira (6).

No Twitter, o resultado do PIB gerou 208,8 mil menções entre o dia 2 e 6 de março, de acordo com levantamento da startup de big data Arquimedes, feito a pedido do GLOBO. A maior parte das postagens, cerca de 81,2%, teve tom de desaprovação ao desempenho da economia e à participação do humorista na coletiva de imprensa na porta do Alvorada. Já as publicações em defesa do governo e que repercutiram positivamente a presença de Carioca somaram 18,8% das menções.

“No saldo final, o humorista acabou dando mais argumentos aos detratores do governo, que dominaram o debate nas redes”, avalia Pedro Bruzzi, sócio da Arquimedes.

Estilo troll

Estudiosa do bolsonarismo, Isabela Kalil, pesquisadora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), lembra que a estratégia de se associar ao humor e a falas ofensivas ou inesperadas para o cargo, no estilo troll, adotado por provocadores na internet, não é novidade na trajetória política do presidente Jair Bolsonaro, que antes de ser eleito para o cargo frequentava programas de auditório e humorísticos na TV.

“A ideia de que Bolsonaro é um homem comum, um outsider, é a estratégia que cria a figura política do Bolsonaro. Ela foi muito bem-sucedida entre os eleitores de sua base até aqui. O ápice dessa estratégia foi a publicação sobre golden shower (a prática sexual foi citada pelo presidente no Twitter no ano passado).”

Kalil destaca, no entanto, que é a primeira vez que o presidente adota essa estratégia para abordar um assunto da agenda econômica, o que pode ter impacto negativo em parte de sua base eleitoral.

“O problema é que parte do eleitorado que sustenta a base do presidente é formada por apoiadores da agenda econômica, representada pelo ministro Paulo Guedes. Para essa base pragmática, a piada não teve graça, o presidente não deu uma resposta satisfatória”, diz a pesquisadora, acrescentando:

“É um eleitorado que tolera as declarações e ataques do presidente em nome da agenda econômica. A questão é que, se essa agenda se desgasta, há risco de ele não tolerar mais.”

Outros casos recentes — também transmitidos nas páginas de Bolsonaro nas redes — indicam que há um método. No fim de fevereiro, o presidente insultou com insinuação sexual a jornalista do jornal “Folha de S. Paulo” Patrícia Campos Mello, ao afirmar que a jornalista “queria dar um furo a qualquer preço”, em referência ao depoimento na CPMI das Fake News no Congresso de Hans River, ex-funcionário de uma empresa que fez disparos em massa pelo WhatsApp nas eleições de 2018.

Na ocasião, o ex-funcionário atacou Patrícia afirmando que a repórter “se insinuou” e queria “sair” com ele, o que foi desmentido pelo jornal com a publicação de troca de mensagens entre os dois.

A declaração ocorreu em paralelo à repercussão das investigações sobre a morte do ex-capitão da PM Adriano da Nóbrega, ligado a Flávio Bolsonaro. No mesmo dia, foi divulgada a informação de que treze telefones celulares e sete chips apreendidos com Adriano passariam por perícia.

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