A resposta às enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul começa a entrar em uma nova fase — menos emergencial e mais estrutural. Após um dos episódios climáticos mais severos da história recente do Estado, a Parceiros Voluntários lança o programa Construir Juntos, propondo uma mudança de paradigma: transformar a lógica da resposta imediata em capacidade permanente de preparação.
As chuvas que atingiram o território gaúcho no último ano provocaram deslocamentos em massa, interrupção de serviços essenciais e forte impacto sobre organizações comunitárias. A atuação emergencial garantiu assistência a milhares de pessoas, mas também revelou um ponto crítico: a maioria das instituições locais não estava estruturada para operar em cenários de crise prolongada.
Foi a partir dessa constatação que o novo programa foi desenhado. Durante o período mais crítico, a rede da organização atuou em 19 municípios, apoiando 32 instituições e impactando mais de 221 mil pessoas com distribuição de itens essenciais e mobilização de voluntários. O aprendizado acumulado nesse processo agora orienta uma etapa mais complexa: fortalecer estruturas locais para que resistam, respondam e se reorganizem diante de novos eventos extremos.
O Construir Juntos tem como foco organizações da sociedade civil, escolas públicas e redes de atenção primária em regiões diretamente afetadas pelas enchentes — como Metropolitana, Vale do Taquari, Vale do Sinos e Serra. Municípios como Porto Alegre, Canoas, São Leopoldo, Lajeado e Caxias do Sul estão entre os prioritários.
A proposta articula diferentes frentes. Até 250 organizações e 40 escolas poderão ser envolvidas, com impacto direto em cerca de 500 lideranças sociais, 200 professores e até 4 mil estudantes. Entre os instrumentos está o Fundo Semente para Resiliência, que prevê aporte de até R$ 20 mil para 50 organizações, além de capacitações em gestão, transparência e análise de riscos, e apoio na elaboração de planos de contingência.
Mais do que ampliar recursos, o programa aposta na construção de uma rede. A articulação entre sociedade civil, poder público e setor privado é tratada como eixo central para garantir respostas mais coordenadas e continuidade de serviços essenciais em contextos adversos. A premissa é objetiva: sem integração e planejamento, a vulnerabilidade tende a se repetir.
“A proposta é transformar o aprendizado da crise em capacidade instalada nos territórios”, afirma Graziela Loureiro. Segundo ela, o foco está na construção de soluções sustentáveis que permaneçam além dos ciclos de emergência.
O programa também incorpora a dimensão educativa como estratégia de longo prazo. Professores e estudantes participam de trilhas formativas voltadas à prevenção e à gestão de riscos, ampliando o alcance das ações para dentro das comunidades e contribuindo para a formação de uma cultura de resiliência.
Como participar
As inscrições para o Construir Juntos estão abertas até 8 de maio e devem ser feitas de forma online, pelo site da Parceiros Voluntários. O edital é destinado a organizações da sociedade civil situadas em áreas atingidas pelas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul. A participação oferece não apenas acesso a recursos financeiros, mas também integração a uma rede estruturada de apoio, capacitação e desenvolvimento institucional.
O avanço do programa indica uma mudança relevante na forma de enfrentar desastres climáticos no Estado. Se a emergência exige rapidez, a reconstrução exige método. E, diante de um cenário em que eventos extremos tendem a se tornar mais frequentes, a capacidade de antecipação passa a ser tão decisiva quanto a resposta.
No Rio Grande do Sul, a reconstrução começa a assumir esse novo significado: não apenas recuperar o que foi perdido, mas reduzir, de forma concreta, a vulnerabilidade ao próximo impacto.(por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)
