Inédita desde a redemocratização do Brasil ao apresentar dois nomes que já ocuparam a Presidência, a próxima eleição tem marcas conjunturais e estruturais que a difere das anteriores. Uma delas é a presença de uma parcela do eleitorado que não demonstra estar disposta a apoiar um dos polos da disputa ao Palácio do Planalto deste ano.
Quantos são hoje, qual o potencial de crescimento até o dia da votação e qual o perfil deste segmento de eleitores que rejeita optar entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL) são questões que instigam análises sobre a polarização apresentada nas intenções de voto para o Palácio do Planalto.
Contudo, as pesquisas eleitorais deixam cristalinas que a maneira como o eleitor se sente em relação a determinados grupos políticos, como petistas ou bolsonaristas, é responsável por deslocar o peso da polarização ideológica para uma polarização “afetiva”, menos vinculada a questões programáticas e com maior foco no afeto ou rejeição dos eleitores.
Além disso, os pré-candidatos localizados no chamado centro, por enquanto, não inspiram afeto ou alta rejeição e, portanto, não conseguem mobilizar os eleitores. Outra conclusão é de que os cerca de 25% que afirmam não votar em Lula e em Bolsonaro não são exatamente os “nem-nem”, o que torna inviável que um terceiro candidato conquiste todo este grupo.
Indefinição ideológica
“A posição ideológica dos partidos importa pouco, já que o principal conflito não tem a ver com ideologia, mas afetos. Tem a ver com a maneira com que as pessoas se sentem com os partidos ou grupos políticos, não são condições relacionadas às políticas públicas”, afirmou Nara Pavão, professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). De acordo com ela, quando um candidato que se autodenomina de centro se diz moderado, ele não eleva necessariamente sua chance de voto.
Para um eleitorado que, conforme mostram estudos, tem dificuldade de se definir em um espectro político a partir da concepção programática, a cisão entre comportamento eleitoral e posicionamento ideológico leva a uma distribuição desconexa das intenções de voto. Na prática, um eleitor de um espectro político pode apostar em um candidato 3/8 com posturas diversas das suas. “O eleitor pode fazer a escolha entre Lula ou Bolsonaro ou outro nome que ele queira e não necessariamente fazer uma escolha por ter uma afinidade ideológica por esse candidato”, disse o cientista político Rafael Cortez.
Atraso nas definições
Analistas apontaram que a concorrência com dois ex-presidentes é definidora no quanto a população reconhece os demais candidatos, já que a escolha leva a como o eleitor enxerga cada governo. “(O centro) Demorou muito para se constituir e perdeu um tempo precioso. A escolha do nome foi no contexto de uma série de divisões internas tanto no PSDB como do MDB”, afirmou o cientista político José Álvaro Moisés.
Desde que lançaram suas pré-candidaturas, nomes que se autodenominam participantes do “centro democrático”, como Simone Tebet, André Janones (Avante) e Ciro Gomes não ultrapassam somados, 12% das intenções de voto. No total, a parcela da população que diz não depositar o voto nos líderes das pesquisas chega a 25%. A mais recente pesquisa Genial/Quaest, de junho, revela que 35% dos entrevistados dizem que sua escolha não é definitiva. Por outro lado, apenas 19% dos eleitores afirmam que não querem nem Lula nem Bolsonaro na Presidência.
Centro democrático
A pesquisadora Graziella Testa apontou que o fato de uma pessoa não estar contemplada nos dois projetos políticos não significa que está em um terceiro. “Posso ser nem (Lula) nem (Bolsonaro) porque não voto ou porque não acredito em política.” Segundo o cientista político Carlos Melo, professor do Insper, outro problema é que a diferença marcante entre o centro democrático e o fisiológico é facilmente confundida e um acaba anulando o outro. “O eleitor nem sempre separa o joio do trigo e acaba buscando alternativas.(…) Ele procura o menos prejudicial, porque para ele o ‘nem-nem’ na verdade é nem um e o outro de jeito nenhum”, disse.
Tanto é assim que neste ano partidos estão mais preocupados em sobreviver a disputar eleições majoritárias. Esta é a primeira eleição em que não haverá coligação para a eleição proporcional em nível federal. Partidos que não têm candidaturas presidenciais competitivas optam por focar em eleger mais deputados e, assim, obter mais recursos públicos, como o fundo partidário e o eleitoral.
