A organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) cresceu vertiginosamente sua presença em Roraima nos últimos quatro anos, de 50 membros em 2014 para 1.500 pessoas nos meses recentes.
Os números foram apurados pela PF (Polícia Federal) durante as investigações que resultaram na Operação Érebo, iniciada na semana passada, com 45 mandados de prisão cumpridos na capital, Boa Vista, e em Mossoró, no Rio Grande do Norte.
Temendo reação contra ação repressiva, as polícias Federal e estaduais mantêm estado de alerta em Roraima, com aumento de efetivo em prontidão, inclusive no último fim de semana. Há uma semana, Roraima é palco de uma série de ações voltadas para recuperar o controle público sobre o sistema prisional.
Segundo um relatório da Secretaria de Justiça e Cidadania, elaborado em 4 de janeiro de 2017, a facção criminosa começou a agir no Estado com 50 homens. O número saltou para 1.000 em 2016, “trazendo à tona novas lideranças e uma nova reorganização da cadeia hierárquica do grupo”, segundo o documento, restrito a autoridades do sistema de segurança pública do Estado.
Na última segunda (26) teve início uma intervenção de fato do governo federal (eufemisticamente denominada “Força Tarefa”); na terça, teve início a Érebo; e na quinta outra operação da PF, denominada Escuridão, prendeu o filho da governadora, dois ex-secretários de Justiça do estado e outros acusados de um esquema de corrupção com verbas destinadas a alimentação nas cadeias.
As duas operações da PF são tratadas como complementares, uma atacando o controle criminoso dos presídios e, a outra, a corrupção na cúpula do sistema prisional. A relação é sugerida pelos nomes semelhantes escolhidos para batizar as duas operações: Érebo, na mitologia grega, é a entidade que encarna a escuridão; já a operação, que prendeu o filho da governadora e outros membros da elite local, é denominada Escuridão.
O sistema de prisões de Roraima é considerado falido até por autoridades locais. Em julho e agosto passados, a juíza Joana Sarmento de Matos, da Vara de Execução Penal da Justiça de Roraima, declarou que sua missão é “administrar o ‘caos’ dia sim, dia também” e que “em Roraima, a Justiça finge que manda prender e os presidiários fingem que ficam presos. Nada funciona e quem quiser entra e sai das cadeias”.
O depoimento da juíza foi comprovado durante recentes gravações de conversas de presos do PCC, quando um presidiário, ao ser comunicado de que poderia sair da cadeia, disse que preferia ficar na cela, na maior prisão estadual, a Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, na periferia da capital.
As investigações da Polícia Federal sobre o PCC em Roraima tiveram início em 2017. Desde então, foi possível, por exemplo, identificar a cadeia de comando da organização, quando a PF concluiu que ordens para atentados criminosos ocorridos na capital, Boa Vista, em julho, foram submetidos e autorizados pelo líder da organização no Estado, que cumpria prisão em Piraquara, no Paraná.
Depois que já tinha sido documentada a sua participação no comando do PCC de Roraima, os criminosos tentaram soltá-lo da cadeia no Paraná, em setembro passado, em ataque que incluiu a explosão de um muro da cadeia e fuga de outros presos. Eles, no entanto, fracassaram ao estourar o lugar errado da muralha.
O líder e outros membros do PCC de Roraima foram transferidos para Mossoró (RN), onde receberam novo mandado de prisão na semana passada. A investigação constatou o modus operandi da organização criminosa, inclusive o rígido esquema hierárquico: os subordinados prestam contas em relatórios minuciosos sobre suas ações e demandam autorização para todos os atos.
Além da PF, participam da Operação Érebo o Ministério Público de Roraima, o Departamento Penitenciário Nacional, as polícias e diversos órgãos de segurança pública de Roraima.
Pelo País
A Polícia Federal vê uma escala armamentista entre as facções e diz que a “situação é bem crítica” na região amazônica, incluindo confrontos entre os grupos CV (Comando Vermelho) e FDN (Família do Norte), embora a segunda esteja perdendo relevância a partir de um racha interno e de uma operação conjunta de repressão desencadeada pela PF e Ministério Público.
O tema das facções criminosas passou a ser de interesse da agência porque “adquiriu contornos que necessitam atenção além dos órgãos de segurança tradicionais”, uma criminalidade organizada que “representa grave ameaça à sociedade, ao Estado e à segurança institucional”. A Agência Brasileira de Inteligência vê “uma escalada do poderio bélico” das quadrilhas, com “ataques ostensivos e execuções seletivas” de servidores públicos da segurança.
