A decisão do governo dos Estados Unidos de rastrear os níveis de testosterona de militares pode identificar alterações que nem sempre precisam de tratamento e levar a reposições hormonais desnecessárias, com possíveis
efeitos adversos, como a redução da fertilidade. A avaliação é de Alexandre Hohl, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), após o anúncio feito pelo secretário de Defesa
dos EUA, Pete Hegseth, na quarta-feira (15).
Em um vídeo publicado no X, antigo Twitter, Hegseth afirmou ter autorizado um programa de exames para avaliar os níveis de testosterona das tropas e garantir, segundo ele, que os militares tenham “níveis adequados” do hormônio para alcançar “o melhor desempenho possível”. A legenda da publicação é acompanhada da expressão “High-T Department” (“Departamento de Alta Testosterona“, em tradução livre).
Do ponto de vista médico, porém, a medida desperta preocupação. Um dos principais motivos é que não existe um “número ideal” de testosterona para todos os homens. Os níveis considerados normais variam conforme a entidade médica, o método laboratorial e as evidências científicas adotadas.
A Sociedade de Endocrinologia dos EUA, por exemplo, considera como possível hipogonadismo (condição em que o organismo produz menos testosterona do que o esperado) níveis abaixo de 264 nanogramas por decilitro (ng/dL), enquanto diretrizes europeias costumam adotar cortes em torno de 300 a 350 ng/dL.
Pelo programa anunciado por Hegseth, militares que tiverem níveis considerados “baixos” de testosterona poderão receber a oferta de reposição hormonal. Já entre os integrantes das Forças Armadas com menos de 30 anos, a participação nos exames será voluntária.
Segundo Hohl, quanto mais alto for o limite escolhido para definir o que seria uma testosterona “baixa”, maior tende a ser o número de homens classificados como tendo deficiência hormonal. “Se o governo americano definir que 350/400 ng/dL ou 500 ng/dL é pouco, por exemplo, a quantidade de homens recebendo testosterona vai ser avassaladora. Muitos correm o risco de ganhar um diagnóstico baseado, muitas vezes, só numa dosagem, sem considerar outros aspectos de saúde, e aí pode acontecer um abuso de uso de testosterona, com a possibilidade de aumento de efeitos adversos, principalmente em uma população jovem”, avalia o endocrinologista.
Quem deve fazer reposição de testosterona?
A dosagem de testosterona não é, por si só, suficiente para indicar a reposição do hormônio. Os níveis de testosterona podem variar naturalmente entre os homens e uma queda isolada no exame não significa, necessariamente, uma deficiência que precise de tratamento.
Para decidir se um homem deve receber tratamento, os médicos consideram, além do nível hormonal, a presença de sintomas de hipogonadismo. Essa é uma condição em que os testículos produzem uma quantidade insuficiente de
testosterona, quadro que pode causar disfunção erétil, queda de libido, diminuição das ereções espontâneas e prejuízos na performance sexual.
O diagnóstico depende da combinação entre sinais clínicos e exames laboratoriais, e não apenas de um valor isolado de testosterona. Só depois dessa avaliação a reposição hormonal é considerada.
A idade também é um fator considerado pelos médicos, especialmente por causa da fertilidade. Em homens jovens sem indicação de reposição, o uso de testosterona pode reduzir a produção de espermatozoides e levar à infertilidade. Esse mecanismo é semelhante ao observado em pessoas que utilizam testosterona com fins estéticos ou para ganho de desempenho, prática proibida em competições esportivas e que pode trazer riscos graves à saúde.
Mesmo entre homens jovens com hipogonadismo, existem situações em que outras estratégias podem ser consideradas antes da reposição direta de testosterona, dependendo da causa da deficiência.
Uso sem indicação traz riscos
Quem usa testosterona sem indicação coloca a saúde em risco. O uso inadequado do hormônio pode causar acne, aumento da oleosidade da pele, queda de cabelo, aumento das mamas em homens, alterações no humor, aumento da
produção de glóbulos vermelhos – o que pode favorecer a formação de coágulos –, alterações no colesterol, problemas cardiovasculares e redução da fertilidade. Em alguns casos, também pode haver alterações no fígado.
Um estudo publicado nesta semana na revista científica eBioMedicine, por exemplo, analisou dados de mais de 350 mil homens para investigar os riscos do uso de testosterona fora das indicações tradicionais. Os pesquisadores
compararam homens que iniciaram a terapia sem evidências de hipogonadismo com aqueles que tinham a condição e acompanharam os grupos por até dez anos.
Aqueles que receberam testosterona sem indicação de deficiência hormonal apresentaram um risco 51% maior de eventos cardiovasculares graves, como infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e outros eventos cardiovasculares
importantes, em comparação com homens que tinham hipogonadismo.
A ocorrência desses eventos foi de 16,53% no grupo sem indicação, contra 11,83% entre aqueles com diagnóstico da condição. O estudo também encontrou um risco 90% maior de morte por qualquer causa entre os homens que usaram testosterona sem evidência de hipogonadismo. Além disso, esse grupo apresentou maior risco de AVC isquêmico (23% maior), parada cardíaca (41% maior) e insuficiência cardíaca (32% maior).
