Um terremoto de magnitude 7,6 atingiu o Panamá na última sexta-feira (9) e provocou um alerta de tsunami para países da América Central e do Sul. O abalo é mais um de grande intensidade registrado na região nos últimos meses, depois dos terremotos que deixaram centenas de mortos na Colômbia, em agosto, e milhares de vítimas na Venezuela, em junho.
Apesar da proximidade geográfica e do curto intervalo entre os episódios, isso não significa que os terremotos estejam relacionados ou que a atividade sísmica esteja aumentando na América Latina.
A explicação para a frequência desses fenômenos está, principalmente, na formação geológica da região. Boa parte do continente está próxima aos limites de grandes placas tectônicas, enormes blocos da crosta terrestre que se movimentam lentamente e acumulam tensão ao longo do tempo.
Quando essa tensão é liberada de maneira repentina, ocorre um terremoto.
Em determinadas condições, um grande abalo pode alterar as tensões em falhas geológicas e até desencadear outros tremores. Mas isso não acontece necessariamente.
Para estabelecer uma possível relação entre diferentes terremotos, os cientistas precisam analisar a localização dos epicentros, a profundidade dos abalos, as falhas envolvidas e o mecanismo de ruptura de cada evento.
Segundo o geofísico Bruno Collaço, da Rede Sismográfica Brasileira (RSBR) e do Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP), a ocorrência de grandes terremotos em poucos meses não é suficiente para concluir que exista uma reação em cadeia. A América Latina reúne diferentes sistemas tectônicos ativos, capazes de produzir tremores intensos de forma independente.
A América Latina está situada em uma das regiões de maior atividade sísmica do planeta. Parte de seu território integra o chamado Círculo de Fogo do Pacífico, uma extensa faixa que acompanha as bordas do oceano Pacífico e concentra terremotos e vulcões ativos.
Nessa região, diferentes placas tectônicas se encontram e se movimentam continuamente.
Entre as principais estão as placas de Nazca, Sul-Americana, do Caribe e de Cocos. Seus movimentos criam zonas de atrito e deformação na crosta terrestre.
Um dos principais mecanismos responsáveis pelos terremotos é a chamada subducção, processo no qual uma placa tectônica mergulha por baixo de outra.
É o que acontece ao longo de grande parte da costa oeste da América do Sul, onde a placa de Nazca avança sob a placa Sul-Americana.
O movimento não ocorre de maneira uniforme. Em alguns pontos, as placas ficam temporariamente presas pelo atrito, mesmo enquanto continuam sendo empurradas uma contra a outra.
A tensão se acumula até ultrapassar a resistência das rochas, provocando uma ruptura que libera energia na forma de ondas sísmicas.
Esse processo explica a frequência de terremotos em países como Chile, Peru, Equador e Colômbia.
Também ajuda a entender por que regiões como Japão, Indonésia e a costa oeste dos Estados Unidos estão sujeitas a grandes abalos.
Por que Panamá também está sujeito a terremotos? O Panamá ocupa uma posição geologicamente complexa, próxima ao encontro de diferentes placas tectônicas.
Enquanto o oeste da América do Sul é marcado principalmente pela interação entre as placas de Nazca e Sul-Americana, a América Central também sofre influência das placas de Cocos e do Caribe.
Na região do Panamá, esses movimentos se combinam com a presença de falhas geológicas e de blocos menores da crosta terrestre, capazes de acumular e liberar grandes quantidades de energia.
Um dos sistemas conhecidos é a Zona de Fratura do Panamá, associada ao movimento relativo entre as placas de Cocos e Nazca.
Isso significa que o país está naturalmente sujeito a terremotos, mesmo quando não há registros recentes de grandes abalos em outras partes do continente.
Segundo os dados iniciais divulgados pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o tremor teve epicentro em terra, na região de Quebro, no sul do Panamá, a aproximadamente 33 quilômetros de profundidade.
O abalo foi sentido com força na Cidade do Panamá, capital do país. A magnitude, inicialmente estimada em 8,0, foi posteriormente revisada para 7,6.
A confirmação de qual falha ou movimento tectônico provocou especificamente o terremoto depende de análises do mecanismo de ruptura.
Terremotos na Colômbia e na Venezuela: Os dois grandes terremotos que atingiram a América do Sul nos últimos meses ajudam a entender como diferentes processos geológicos podem produzir abalos de grande intensidade.
Em 10 de agosto, um terremoto de magnitude 7,4 atingiu o oeste da Colômbia, com epicentro no departamento de Chocó. O tremor provocou desabamentos e danos em cidades como Cali, Pereira e Manizales, além de ser sentido em Bogotá e em países vizinhos.
Já em 24 de junho, a Venezuela foi atingida por dois fortes terremotos, que provocaram uma das maiores tragédias recentes do país, com mais de 6 mil mortes.
Embora tenham ocorrido em países vizinhos, os eventos tiveram origens distintas. Segundo Collaço, o terremoto colombiano esteve associado à dinâmica da placa de Nazca, que mergulha sob a placa Sul-Americana.
Na Venezuela, por outro lado, os abalos ocorreram em uma região influenciada pela interação entre as placas Sul-Americana e do Caribe.
“O caso da Venezuela é um pouco diferente, porque naquela ocasião os sismos foram causados por um outro contexto tectônico mais complexo, na interação da placa da América do Sul e a do Caribe”, explica o geofísico.
Isso significa que, apesar da proximidade geográfica, os terremotos se originaram em sistemas tectônicos diferentes.
Um terremoto pode provocar outro? Sim. Grandes terremotos podem alterar a distribuição de tensões na crosta terrestre e, em determinadas circunstâncias, desencadear novos abalos.
Isso acontece principalmente nas proximidades da falha responsável pelo primeiro tremor, onde podem ocorrer as chamadas réplicas, ou tremores secundários.
O USGS explica que as ondas sísmicas de um grande terremoto também podem, em algumas condições, desencadear tremores em áreas distantes que já estejam sujeitas a tensões geológicas.
Mas isso não significa que todos os grandes terremotos registrados em sequência estejam relacionados.
Para estabelecer uma conexão, os cientistas precisam analisar a localização dos epicentros, a profundidade dos abalos, as falhas envolvidas e a maneira como a energia se propagou pela crosta terrestre.
No caso dos terremotos registrados na Colômbia e na Venezuela, as análises apontam para processos tectônicos distintos.
Quanto ao Panamá, ainda são necessárias informações detalhadas sobre a ruptura para determinar se existe alguma influência de eventos anteriores. As informações são do portal de notícias G1.
