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Por que exigimos dos adolescentes o equilíbrio que nem os adultos têm?

Até o século XIX, não se falava em adolescência como etapa do desenvolvimento humano. (Foto: Reprodução)

A adolescência escancara o que a pressa do mundo tenta esconder: a nossa incapacidade de lidar com as próprias emoções, frustrações e limites. Mas antes de perguntar “o que está acontecendo com esses jovens?”, talvez devêssemos perguntar o que estamos oferecendo como referência de convivência, escuta e responsabilidade.

Episódios recentes envolvendo adolescentes têm acendido o farol vermelho quando o assunto é violência. São meninos – majoritariamente – e meninas envolvidos em brigas, desafios perigosos, agressões filmadas, atos impulsivos que rapidamente se tornam espetáculo nas redes sociais. A reação adulta costuma ser imediata e previsível: aponta-se o dedo para o celular, para a internet, para os pais que “não educaram” ou “não deram limites”. Fecha-se o diagnóstico antes mesmo de formular a pergunta certa.

O que raramente entra em pauta é o fato de que esses episódios não surgem no vazio. Eles são expressão de um mal-estar social mais amplo, que atravessa gerações, instituições e vínculos. Ao transformar a violência adolescente em problema individual – ou em falha exclusiva da família – os adultos aliviam a própria responsabilidade e evitam um espelho incômodo: aquilo que condenam nos jovens é, muitas vezes, o que naturalizaram em si mesmos.

Impulsividade, dificuldade de lidar com frustrações, necessidade de reconhecimento, respostas agressivas diante do limite, intolerância ao desconforto. Quantas dessas características os adultos apontam na adolescência sem perceber o quanto elas também organizam a vida adulta contemporânea? Vivemos em uma sociedade pouco tolerante ao erro, viciada em visibilidade, com baixa capacidade de elaborar conflitos – e esperamos que adolescentes, em plena formação, sejam emocionalmente mais equilibrados do que o mundo que os cerca.

Talvez por isso a adolescência incomode tanto. Ela escancara o que a pressa do mundo tenta esconder: nossa dificuldade coletiva de lidar com emoções, limites e frustrações. Antes de perguntar “o que está acontecendo com esses jovens?”, talvez precisemos perguntar o que estamos oferecendo como referência de convivência, escuta e responsabilidade.

Será que a adolescência é mesmo esse campo minado que tanto se repete? Ou será que a gente ainda fala dela com os mesmos clichês de sempre porque, na verdade, ainda entendemos pouco sobre o que significa crescer? E se nos propuséssemos a fazer diferente a partir de agora? A começar por buscar entender o que é, de fato, a adolescência. O olhar sobre essa fase é recente. Até o século XIX, não se falava em adolescência como etapa do desenvolvimento humano. Passava-se da infância à vida adulta sem intervalos: meninas casavam cedo, meninos começavam a trabalhar, e qualquer turbulência emocional era vista como imaturidade ou desvio.

Foi só há cerca de duzentos anos, mais ou menos, que médicos, psicólogos e educadores começaram a reconhecer que havia algo específico nesse período – um intervalo entre depender e ser independente, entre obedecer e decidir. O problema é que essa descoberta nasceu cercada de preconceitos: a sociedade aprendeu a nomear a adolescência, mas não a compreendê-la.

E até hoje espera-se do adolescente uma maturidade que ele biologicamente não tem. O cérebro, por exemplo, vive uma revolução silenciosa. A região que regula impulsos e decisões – o córtex pré-frontal – ainda está em construção, enquanto o sistema límbico, ligado às emoções e à busca por prazer, funciona em potência máxima. O resultado é previsível: sentimentos à flor da pele, impulsividade, necessidade de testar, de desafiar, de pertencer.

É o corpo inteiro se reorganizando: o crescimento físico acelera, a pele muda, a voz oscila, o sono se altera. As transformações hormonais reconfiguram até a forma de perceber o próprio corpo e o mundo ao redor. É como se, de um dia para o outro, o adolescente passasse a habitar uma casa nova – e ainda estivesse aprendendo a viver nela.

Mas esse processo natural de construção da identidade acontece hoje em um contexto que não favorece o amadurecimento saudável – nem de adolescentes, nem de adultos. Vivemos em uma época de pressa e visibilidade, em que tudo precisa ser dito, mostrado e medido. As redes sociais criaram uma adolescência pública, onde cada erro é exposto e cada insegurança ganha plateia. É uma geração que cresce sob vigilância – de pais, de escolas, de algoritmos. E tudo isso em meio a crises climáticas, polarização, ansiedade social e escassez de perspectivas.

O que era para ser uma travessia íntima tornou-se uma travessia sob pressão. A OMS estima que uma em cada sete pessoas entre 10 e 19 anos vive com algum transtorno mental, e o suicídio já é uma das principais causas de morte nessa faixa etária. Os dados expõem um mal-estar coletivo: a adolescência é atravessada não só por transformações biológicas, mas por um mundo que exige respostas rápidas, sucesso precoce e estabilidade emocional de quem ainda está aprendendo a se conhecer.

A rebeldia, tantas vezes mal interpretada, é parte do processo. Ela não é desobediência gratuita, mas tentativa de afirmar autonomia. Como lembra a psicanalista Luciana Saddi, sociedades estáveis, como as indígenas, marcam a passagem para a vida adulta com rituais claros – desafios, aprendizados, símbolos de pertencimento. Nas sociedades instáveis, como a nossa, os adolescentes inventam seus próprios rituais: testam, se expõem, erram. E nós, adultos, chamamos isso de problema.

Mas talvez o maior problema seja outro: nossa dificuldade em acompanhá-los. Cuidar da adolescência exige um tipo de presença diferente – uma presença que acolhe sem invadir, que impõe limites sem punir, que escuta antes de concluir.

É preciso validar sentimentos, reconhecer esforços e oferecer contorno. Não o controle da vigilância, mas o contorno da confiança. A adolescência não é uma fase a ser “superada”, e sim um processo a ser vivido. Uma etapa fundamental para aprender a se relacionar com o próprio corpo, com as emoções, com os outros. E talvez o maior tabu ainda seja este: admitir que são os adultos – pais, professores, sociedade – que também precisam se transformar.

Porque se há algo que a adolescência revela é o quanto ainda resistimos à ideia de crescer. (Carolina Delboni/Agência Estado)

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