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Por que o Banco Central do Brasil cortou tão pouquinho a taxa básica de juros? Entenda

O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa básica de juros em 0,25 ponto porcentual. (Foto: Marcello Casal Jr/ABr)

Na semana passada, vários bancos centrais importantes, como o da Europa, o da Inglaterra e o dos Estados Unidos, mantiveram as taxas de juros inalteradas e sinalizaram uma cautela maior na condução da política monetária daqui em diante.

Na quarta-feira (18), no Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa básica de juros em 0,25 ponto porcentual: levou a Selic para 14,75% ao ano. Foi o primeiro corte em quase dois anos. Mas, antes do início do conflito, a expectativa majoritária do mercado financeiro era de que haveria um corte de 0,50 ponto porcentual.

No mais recente relatório Focus, divulgado semanalmente pelo Banco Central, os analistas consultados elevaram a projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deste ano de 3,91% para 4,1%. Para os anos seguintes, as previsões foram mantidas em 3,8% (para 2027) e 3,5% (para 2028).

“Vai ser preciso ter muita cautela para conduzir esse processo sem deixar as expectativas se desancorarem fortemente”, afirma Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management.

Também na quarta-feira, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) manteve as taxas de juros na faixa entre 3,50% e 3,75%. Em uma coletiva de imprensa, logo depois da decisão do FOMC (o Comitê Federal de Mercado Aberto, na sigla em inglês), o presidente do Fed, Jerome Powell, chegou a colocar no radar o risco de alta das taxas de juros.

Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, avalia que, no caso americano, a inflação estava subindo. “É um cenário em que a inflação já estava pressionada e já colocava uma dor de cabeça para o banco central dos EUA, porque ele já estava parando de reduzir os juros por causa disso”, diz.

Vale destaca que o preço da gasolina nos EUA já subiu 34%; e o do diesel, 40%. “Com um choque dessa magnitude, começa a aumentar a chance de não só ficar com os juros parados, mas pensar, talvez, em aumentar os juros”, acrescenta.

Na quinta-feira, foi a vez de o Banco da Inglaterra (BoE) deixar os juros inalterados em 3,75% ao ano, diante das incertezas provocadas pelo conflito no Irã. O BC inglês destacou que o conflito no Oriente Médio deve provocar um aumento da inflação no curto prazo.

No mesmo dia, o Banco Central Europeu (BCE) seguiu pelo mesmo caminho e não alterou as principais taxas de juros. “Quando há incerteza, a tendência é aumentar o conservadorismo”, diz Leal, da G5 Partners.

Para o economista-chefe do banco C6, Felipe Salles, o impacto da guerra na inflação pode não ser temporário, como se esperaria de um choque de oferta como o que está ocorrendo agora. Isso porque, desde a pandemia, a inflação está pressionada e acima da meta em vários países, como os Estados Unidos.

“Esse ponto de partida da inflação importa. Muito possivelmente, os agentes econômicos terão na memória que, no último choque que tivemos – o da pandemia –, a inflação subiu e não cedeu depois. Tem um risco de que as expectativas sejam contaminadas e de que a inflação permaneça alta depois do conflito.”

A inflação elevada deve fazer com que bancos centrais em todo o mundo adotem posições mais conservadoras, mantendo juros altos ou diminuindo a velocidade de corte dos juros, diz Salles.

Embora o cenário para a inflação esteja mais complicado e os juros possam permanecer num patamar elevado, os economistas ainda não enxergam um impacto relevante para a atividade global, que tem se mostrado bastante resiliente ao longo dos últimos anos.

“O mercado, pelo menos, está precificando um impacto mais modesto na atividade. Normalmente, quando o impacto é maior, a gente vê isso já no preço das ações (que cairia de forma mais acentuada). As cotações não estão compatíveis com uma desaceleração brusca da atividade”, diz Salles. Ele pondera que o cenário pode mudar a qualquer momento, a depender do que acontecer na guerra.

O Itaú Unibanco deve incorporar o impacto do conflito nas projeções de crescimento para a economia global nas próximas semanas. Mas, por ora, prevê que o Produto Interno Bruto (PIB) mundial cresça 3,6% neste ano, um pouco acima dos 3,3% observados em 2025.

“A economia mundial tem se mostrado bem resiliente nos últimos anos. Já estamos vindo de alguns anos de surpresas positivas para o crescimento global”, afirma Pedro Schneider, economista do Itaú. “No ano passado, por exemplo, mesmo com todo o aumento das tarifas do Trump, a economia global aguentou bem.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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