Tenho enorme curiosidade de saber como será o governo de Lula IV. Uma coisa é certa: ele terá de abrir o debate, fazer concessões, e tirar coelhos da cartola todos os dias para governar.
Ele terá de atravessar diuturnamente dois rios infestados de crocodilos famintos, que podem engoli-lo de uma só bocada, ou aos pedaços, lentamente: o rio de uma oposição forte, feroz e com sede de vingança e o das contas públicas, aquelas que sempre tiraram o sono dos governantes, mais as que ele acrescentou no final de campanha, as oferendas generosas do pai amoroso para os filhos diletos, na insólita feira de bondades que ele escancarou em momento de dificuldade eleitoral.
Ele tem alguma chance de amenizar a oposição saciando a sede de verbas de um Congresso guloso, que cobra caro cada decisão de interesse ao governo. Mas aí ele esbarra na notória insuficiência das verbas: o cobertor nunca foi tão curto – margem exígua para solução manjada.
Também não existe espaço para um novo aumento de impostos ou magias do tipo do antigo CPMF, por duas ordens de razão inamovíveis: a maioria parlamentar de oposição não deixará passar para encurralar o governo e para fazer o discurso fácil (e verdadeiro) que a sociedade já paga impostos demais.
Outro caminho possível – o preferido do mercado e dos economistas ortodoxos – é a redução dos gastos públicos. Aí a dificuldade está dentro de casa: não toquem nesse assunto para Lula. Já no discurso da vitória ele acenou com novos pacotes de bondade, como um programa Pé-de-Meia em favor dos estudantes universitários.
Como já mencionou alguém, ao menos no Lula IV não se ouvirá falar de “herança maldita”, a não ser no caso de uso da boca torta. Agora, se fazem muitos memes com a posse, em que Lula sem chapéu aparece entregando a faixa presidencial para Lula com chapéu. A tempo e hora (e talvez já tenha aparecido) veremos memes de Lula reclamando para o espelho da “herança maldita”.
De todo modo, a vitória de Lula foi boa para o Brasil. Na ordem máxima de considerações, foi um enorme avanço não ter entregado o governo do país a um personagem medíocre, de raras inabilidades, como Flávio Bolsonaro. Sua fuga rocambolesca, cinematográfica, é digna de um filme B de Hollywood, inclusive pelo auxílio prestimoso do seu mentor e protetor, o “estadista” Donal Trump.
O que poderíamos esperar de um candidato que perde a eleição por mais de 4 milhões de votos e ainda assim, em momento de surto, se diz “presidente do Brasil”? Nem vou mencionar outras tantas desqualificações desse cidadão. Que seja feliz na América.
Num segundo ponto, a vitória de Lula impede o domínio absoluto de uma só e temerária facção política, em todas as instâncias de poder, no Legislativo, no Judiciário, no Executivo. Uma boa parte dos eleitores que foram às urnas dia 25 e sufragaram o vencedor, tinham isso em mente: para a democracia é mais saudável a distribuição de poder, não a concentração. Não há equilíbrio dos poderes se eles estiverem sob o controle de um só grupo político.
E finalmente, mesmo no ponto sensível do novo governo, as finanças públicas, é certo que as coisas fluirão melhor com um Congresso de maioria oposicionista, e pois, capaz de barrar as tentações da gastança desmedida.
(titoguarniere@terra.com.br)
