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Presidente da Argentina, Javier Milei intensifica ações contra imigrantes e gera tensão em Buenos Aires

Embora recente, a política já vinha sendo cultivada no discurso do governo. (Foto: Reprodução)

A Argentina está promovendo uma investida inédita contra estrangeiros do governo de Javier Milei no começo deste ano. O bairro Once, uma região comercial da capital Buenos Aires que lembra a paulistana 25 de Março, foi palco de uma operação do tipo neste mês. Agentes montaram postos de controle, exigindo que as pessoas apresentassem documento de identificação e impressões digitais.

Segundo o Ministério de Segurança, cerca de 10 mil pessoas foram expulsas ou impedidas de entrar no país de janeiro a abril deste ano. “Acabou o descontrole migratório na Argentina. Decisões firmes. Aqui quem faz, paga”, disse a chefe da pasta, Alejandra Monteoliva, em vídeo publicado nas redes sociais na semana passada.

Ela credita o endurecimento à mudança da Direção Nacional de Imigrações, antes vinculada ao Ministério do Interior, para a pasta de Segurança, em novembro. “Quatro meses de decisões firmes, regras claras, mais controle nas fronteiras e cumprimento rigoroso da lei”, afirmou.

Em janeiro, Monteoliva já havia anunciado que 5.000 pessoas não puderam entrar ou foram expulsas do país durante os dois meses anteriores.

Embora recente, a política já vinha sendo cultivada no discurso do governo.

“Hoje temos uma política de imigração que fomenta o caos e o abuso por parte de muitos oportunistas, que estão longe de vir ao país honestamente para construir um futuro próspero”, afirmou o porta-voz da Presidência, Manuel Adorni, há quase um ano. “A Argentina não será terreno fértil para criminosos.”

Veigas diz que a associação que o governo faz entre migrantes e criminosos —uma estratégia usada também por Donald Trump, aliado de Milei— a faz se sentir discriminada. “A maioria dos imigrantes trabalha. Você vê isso na construção civil, nos comércios, em todo lugar. São os estrangeiros que estão lá”, afirma ela.

Emprego, aliás, foi a causa de sua migração, há três décadas. Nascida em La Paz, Veigas começou a trabalhar ainda criança após sua avó, para quem sua mãe a havia entregado, morrer. “Trabalhei em lojas, como ama de casa, com o que tivesse”, diz.

Quando chegou à Argentina, na década de 1990, a ideia era juntar dinheiro, voltar à Bolívia e estudar para ser policial. Mas ela acabou ficando. “Até Milei, sempre me senti acolhida com todos os presidentes”, afirma a comerciante, que viu figuras tão diferentes como Mauricio Macri e Cristina Kirchner passarem pela Casa Rosada.

Com essa política, Milei entra na onda de líderes de ultradireita ao redor do mundo que têm o combate à imigração como uma de suas principais bandeiras —um movimento que aterrisou apenas recentemente na ultradireita da América Latina.

“Há alguns anos, a questão da migração na região não era um tema muito relevante, e por isso a extrema direita não a explorou. Não fazia sentido falar sobre esse tipo de assunto se não fosse uma preocupação da população”, afirma Cristóbal Rovira Kaltwasser, professor de ciência política da PUC do Chile e diretor do Ultra-Lab, que estuda a ultradireita na região.

Segundo dados do último Censo de 2022, cerca de 1,9 milhão de estrangeiros vivem na Argentina, o que equivale a aproximadamente 4,2% da população. Em 2010, essa proporção era de 4,5%, e, no censo anterior, de 2001, também girava em torno de 4,2%. Não há dados nem estimativas oficiais sobre pessoas em situação irregular.

Além disso, segundo uma pesquisa global do instituto Ipsos, apenas 5% dos entrevistados na Argentina mencionaram a migração como uma de suas três principais preocupações —à frente de Colômbia e México, com 4%, e Brasil, com apenas 1%.

“Minha impressão é que Milei traz essa questão à tona porque percebe que, em outros países onde a extrema direita está presente, esse é um dos temas que ganha proporções exageradas”, diz Kaltwasser, que não descarta uma mudança na opinião pública a partir desse tipo de discurso.

“A política é uma via de mão dupla. Não se trata apenas do que os eleitores querem, mas também do que é oferecido a eles.” As informações são do jornal Folha de S.Paulo.

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