O presidente eleito do Chile, Gabriel Boric, procurou tranquilizar investidores, na última segunda-feira, ao dizer que pretende manter a disciplina fiscal e as relações internacionais do país. Após reunir-se com o atual presidente, Sebastián Piñera, o esquerdista foi questionado por jornalistas sobre o fato de os ativos chilenos terem despencado um dia após a vitória que lhe dá autoridade para levar adiante uma reforma da economia mais aberta da América Latina.
Boric disse que sua equipe observa de perto os mercados e que manterá o compromisso com a prudência fiscal. Ao mesmo tempo, porém, expressou um tom de independência ao destacar que “as decisões democráticas do povo chileno não devem estar sujeitas a outras pressões”.
O peso chileno registrou, na segunda-feira, a sua maior perda em um dia em uma década e fechou em baixa recorde, com desvalorização de 3,4%, para 876 por dólar. O principal índice da Bolsa de Valores fechou em queda de 6,2%. As taxas de retorno dos bônus do Chile em moeda estrangeira subiram modestamente.
Investidores temem que as políticas de Boric derrubem uma das economias mais ricas da América Latina com impostos mais altos, aumento dos gastos sociais e mais regulamentação governamental sobre as empresas.
Ao sair do encontro com Piñera, o presidente eleito disse que sua equipe e a de Piñera trabalharão para encontrar um terreno comum, apesar das fortes diferenças políticas. Ele toma posse em 11 de março, quando terá completado 36 anos.
Boric, um deputado do Congresso que ganhou fama como líder estudantil, derrotou seu rival conservador, José Antonio Kast, por mais de 10 pontos percentuais no segundo turno da eleição.
“Nós já embutimos em nossa avaliação o risco de grandes déficits”, disse Graham Stock, estrategista da BlueBay Asset Management em Londres. “Mas isso não vai ficar fora de controle.”
A Sociedad Química y Minera de Chile, a segunda maior produtora de lítio do mundo, liderou as perdas no Índice de Preços Seletivo de Ações (IPSA), com uma queda de 14%, a maior desde o início da pandemia. O programa de governo de Boric prevê a criação de uma empresa nacional de lítio.
“É muito provável que o mercado continue a se deteriorar, por causa de incertezas e riscos que ainda existem sobre como Boric vai dirigir o próximo governo”, disse María Luz Muñoz, diretora e estrategista da Nevasa. “O mercado está inseguro de que ele será capaz de moderar de forma efetiva.”
Depois da votação do primeiro turno, no mês passado, Boric amenizou sua mensagem para atrair os eleitores do centro. No discurso de domingo, ele reiterou que buscará manter a disciplina fiscal à medida que avance com suas reformas, que incluem aumentar os impostos para os ricos e o setor de mineração, rejeitar projetos que prejudiquem o meio ambiente, melhorar os serviços sociais e desmantelar o sistema de previdência privada.
“Não podemos continuar a permitir que os pobres paguem pelas desigualdades do Chile”, disse durante o discurso de vitória. Seu governo enfrentará enormes desafios, como o Congresso dividido, forte desaceleração econômica, a redação da nova Constituição e ameaça de instabilidade social. As informações são da Agência Bloomberg.
