Presidente nacional do PP, o senador Ciro Nogueira busca a reeleição no Piauí com uma campanha à moda do centrão: apoio de prefeitos atraídos por emendas parlamentares, alianças à esquerda e à direita e acenos aos eleitores lulistas e bolsonaristas, enquanto deixa em branco o campo do presidenciável em sua propaganda eleitoral.
Ciro é o principal opositor no Piauí do PT, que estabeleceu como meta derrotá-lo. O senador diz abertamente querer liderar o “maior partido conservador de centro-direita” do Brasil, em contraposição a Lula (PT). Mas, no interior, prefeitos e deputados petistas fazem campanha sem constrangimento para o adversário e ajudam a difundir o nome dele entre os eleitores do estado mais lulista do país – em 2022, Lula venceu em todas as 224 cidades do Piauí e foi eleito com 76,84% dos votos válidos.
Na última quinta-feira (24), Ciro viajou por duas horas de carro a Barro Duro (PI) para pedir votos. Foi recebido por funcionários da prefeitura numa praça e caminhou até a casa de Coronel Elói (PSD) – o prefeito mais velho do país, com 89 anos, e que desde 1994 apoia as candidaturas de Ciro.
O presidente do PP explora em seu discurso o poder que conquistou em Brasília, o que teria lhe permitido distribuir R$ 5 bilhões de verbas federais (nas contas dele) para municípios no Piauí. Neste cálculo, entrariam repasses federais de quando era ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro (PL) e emendas parlamentares liberadas na gestão Lula.
“Eu distribuo 100% para os prefeitos, eles são meus representantes”, diz.
Saulo Trajano (PT), prefeito de Passagem Franca do Piauí, cidade vizinha de Barro Duro, diz trabalhar para multiplicar os votos do senador. “Temos que retribuir tudo o que ele trouxe para nossas cidades”, discursou.
O prefeito petista diz que Ciro aporta R$ 3 milhões por ano no município, o que lhe dá condições de fazer mais investimentos.
Pelo menos outros 12 prefeitos dos 50 que o PT tem no Estado apoiam abertamente a candidatura de Ciro. O número seria maior não fosse a atuação do governador Rafael Fonteles (PT), favorito à reeleição, para evitar defecções às candidaturas ao Senado de Júlio César (PSD) e Marcelo Castro (MDB).
Ciro aposta na rede de prefeitos que construiu para uma arrancada na reta final da eleição, na tentativa de chegar ao terceiro mandato ao Senado pelo Piauí, o que seria inédito para políticos do Estado.
O presidente do PP diz ter o apoio de 200 dos 224 prefeitos do estado. Em 180, diz contar com o apoio também da oposição. A campanha feita “nos bastidores”, para não confrontar Fonteles, tem tido eficácia. Na equipe do governador petista, o cálculo é diferente do feito por Ciro. Ainda assim, ele teria o apoio de 140 prefeitos, acima dos 123 de Júlio César, e menos dos 190 de Marcelo Castro.
A rede de apoios foi confeccionada com dinheiro de emendas parlamentares. Como presidente do partido, Ciro direcionou 50% dos R$ 358 milhões do PP da Câmara dos Deputados para o Piauí no ano passado.
Seu aliado, o deputado Júlio Arcoverde (PP-PI), presidiu a Comissão de Orçamento e enviou mais R$ 244 milhões para o Estado. Somados, os dois tiveram seis vezes mais emendas de comissão – um tipo de emenda extra, além do que o governo é obrigado a pagar – do que teve o então líder do governo Lula na Câmara, o deputado José Guimarães (PT-CE).
Nesta eleição, a ligação com a família Bolsonaro se tornou indesejada por medo de afastar o eleitor lulista. Ciro não pede votos para Flávio, e um acordo com o presidenciável evitou uma visita dele ao Piauí durante a campanha. O partido de Bolsonaro, por sua vez, decidiu apoiar Ciro, mesmo ele não fazendo campanha para Tiago Junqueira (PL), segundo candidato da chapa ao Senado.
Ciro mantém boas relações com os donos dos principais grupos de mídia do estado e uma rede própria de comunicação formada por blogs, veículos e perfis nas redes sociais que o defendem e atacam adversários. Na maioria das entrevistas locais, ele falou sobre obras e emendas, sem questionamentos sobre a relação dele com Daniel Vorcaro, do Banco Master.
O senador teve viagens de luxo bancadas por Vorcaro, e a Polícia Federal investiga suspeitas de pagamento de propina em troca de atuar em favor do Banco Master.
Ciro diz que as informações reveladas do celular de Vorcaro são falsas e afirma que causam poucos reflexos na eleição. O senador também é mencionado por ter atuado em favor de Ricardo Magro, dono da Refit e considerado o maior sonegador de impostos do país, em Brasília. (Com informações da Folha de S.Paulo)
