O presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, criticou Luiz Inácio Lula da Silva por adotar a narrativa de Vladimir Putin, após o brasileiro ter dito que nem Rússia, nem Ucrânia querem a paz “enquanto há pessoas morrendo”. “Não sei por que é que (Lula) tem de coincidir com as narrativas de Putin”, afirmou Zelenski, durante entrevista à agência de notícias Efe e a vários veículos de comunicação latino-americanos em Kiev, quando questionado sobre as declarações feitas pelo presidente brasileiro nesta semana.
Zelenski comentou que Putin “não é diferente de nenhum colonizador”, afirmando que ele “mente e manipula constantemente, está matando crianças e estuprando mulheres”. “Espero que ele (Lula) tenha uma opinião própria. Não creio que seja necessário que seus pensamentos coincidam com os pensamentos do presidente Putin.”
O presidente ucraniano afirmou ainda que declarações como as do brasileiro “não ajudam a trazer a paz”. Zelenski insistiu em convidar Lula a se reunir com ele para falar pessoalmente sobre o que está acontecendo na Ucrânia. “Para ser honesto, se o presidente Lula quiser me dizer alguma coisa, que se sente (comigo)e me diga. Pensei que ele tivesse uma compreensão mais ampla do mundo.”
Em maio, Lula e Zelenski estiveram a ponto de se encontrar na cúpula do G-7, em Hiroshima, no Japão. Na ocasião, o presidente brasileiro disse Zelenski se atrasou para a reunião bilateral e depois não apareceu para o encontro. O ucraniano minimizou o caso. “Eu acho que ele ficou desapontado”, disse Zelenski.
Lula já se apresentou em várias ocasiões como um possível mediador entre Ucrânia e Rússia. Enquanto o presidente brasileiro defende o início das conversas nas atuais circunstâncias, Zelenski se recusa a comparecer à mesa de negociações enquanto a Rússia não retirar as suas tropas dos territórios ocupados.
As declarações de Zelenski foram dadas em meio a um intenso bombardeio russo contra bases aéreas no oeste da Ucrânia, um dia após um petroleiro russo ter sido atingido por drones ucranianos no Mar Negro.
A Força Aérea ucraniana afirmou no domingo que derrubou 30 dos 40 mísseis de cruzeiro e todos os 27 drones iranianos Shahed lançados pela Rússia. A Ucrânia indicou que os russos também usaram três mísseis hipersônicos Kinzhal, mas não explicou se eles estavam entre os projéteis abatidos.
Em resposta, a Ucrânia atacou pontes vitais para a ligação entre a Crimeia – anexada pela Rússia em 2014 – e partes da região ucraniana de Kherson, também ocupadas por forças russas. Entre os alvos, estaria uma ponte que liga a cidade de Henichsk ao Arabat Spit, a barreira que separa o Mar de Azov das águas salinas do Lago Sivas, na costa leste da Crimeia.
De acordo com a CNN, o líder da ocupação russa em Kherson, Vladimir Saldo, afirmou que a Ucrânia disparou mísseis de longo alcance fornecidos pelo Reino Unido e conhecidos como “Sombra da Tempestade” (Storm Shadow, em inglês) sobre a ponte de Chonhar e um assentamento na mesma localidade. Saldo disse que a ponte foi danificada e uma escola do vilarejo também foi atingida.
Na semana passada, autoridades russas acusaram a Ucrânia de lançar ataques de drones que atingiram um prédio comercial em Moscou que abriga escritórios do governo. A ofensiva ucraniana dentro da Rússia faz parte de um padrão cada vez mais aberto de levar a guerra para perto dos russos, uma estratégia para tentar minar o apoio da população a Putin.
Apesar do alto custo da guerra para os militares de ambos os países, além dos civis ucranianos – mais de 9 mil já morreram, segundo estimativa da ONU –, as negociações para acabar com os combates ainda não renderam nenhum progresso significativo.
Isso ocorre porque russos e ucranianos estão tentando obter ganhos territoriais no campo de batalha antes de qualquer negociação. Zelenski propôs uma fórmula de paz que inclui o fim das hostilidades e a retirada de Moscou de todos os territórios ucranianos ocupados, incluindo a Crimeia – exigências que o Kremlin rejeita categoricamente.
Uma rodada de negociação terminou ontem em Jeddah, na Arábia Saudita, sem nenhum resultado concreto. A Rússia não participou do encontro. O único avanço, segundo diplomatas, foi a presença da China, que vinha evitando o diálogo e aceitou o convite para outras reuniões. As informações são dos jornais O Estado de S. Paulo e The New York Times e da agência de notícias Efe.
