Faltam duas semanas para as Primárias Abertas Simultâneas e Obrigatórias (Paso) na Argentina, teste eleitoral que definirá quais serão os candidatos que disputarão o primeiro turno das presidenciais de 22 de outubro, e o cenário é, segundo analistas ouvidos pelo jornal O Globo, de muitas dúvidas e pouquíssimas certezas. São dois os principais consensos: o candidato do governo, o ministro da Economia Sergio Massa, está com dificuldades para decolar pela crise, sobretudo pela taxa de inflação acima de 100% ao ano; e o candidato da extrema direita, Javier Milei, perdeu fôlego. Ao contrário do que mostravam as pesquisas até maio, hoje Milei aparece com poucas chances de disputar o segundo turno em 19 de novembro.
O fenômeno Milei – admirador de Jair Bolsonaro e Donald Trump, mas que nunca teve seus níveis de popularidade, nem aliados políticos de peso –, que surgiu nas eleições legislativas de 2021, quando o pré-candidato presidencial do partido A Liberdade Avança, fundado e liderado por ele, foi eleito deputado, não mostra a fortaleza de outros tempos. De acordo com Mariel Fornoni, diretora da Management & Fit, entre abril e maio Milei chegou a ter 25% das intenções de voto nas Paso. O pré-candidato não disputará a candidatura presidencial de seu partido com ninguém, mas as primárias são obrigatórias e acabam sendo a pesquisa mais confiável.
“Milei teve escândalos de venda de candidaturas em seu partido, comportamentos muito estranhos, não tem estrutura política e todos os seus candidatos perderam nas eleições regionais realizadas este ano”, explica Fornoni.
Milei, aliado do espanhol Vox, entre outros, deixou de ser favorito na eleição que determinará quem será o sucessor do peronista Alberto Fernández – que tem em torno de 18% de aprovação e é considerado um dos piores presidentes desde a redemocratização, em 1983.
“Outros nomes foram surgindo, como o de Patricia Bullrich. O resultado dependerá da participação, que foi baixa nas eleições regionais”, afirma a analista.
De fato, o crescimento de Bullrich, pré-candidata da aliança opositora de centro-direita Juntos pela Mudança, integrada pelo ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019), afetou Milei. A ex-ministra dos governos Macri e De la Rúa (1999-2001) é a grande surpresa da campanha, e, segundo pesquisas, tem chances de vencer as primárias da oposição tradicional. Com um Milei que não conseguiu construir um partido nacional, e repete há mais de um ano as mesmas ideias (entre elas a de dolarizar a economia), a única mulher que está na corrida cresceu, e vem fazendo declarações fortes. Semana passada, Bullrich disse que a vice-presidente, Cristina Kirchner, condenada por corrupção (mas ainda sem sentença firme), deveria estar presa.
“Quando não tínhamos outros nomes fortes, Milei chegou a estar em primeiro lugar. Mas nos últimos dois meses a onda passou”, afirma Diego Reynoso, que coordena as pesquisas da Universidade de San Andrés, descartando que possa se repetir o fenômeno Bolsonaro, eleito em 2018 sem estrutura partidária nacional.
Para ele, “embora Milei esteja num virtual terceiro lugar, sua presença mexeu no tabuleiro político nacional”. “Hoje, em parte pelo surgimento de Milei, o eleitorado argentino tende à direita, e isso foi capitalizado por Bullrich”, aponta Reynoso.
Para alguns analistas, se a pré-candidata, que tem o apoio tácito do ex-presidente Macri, vencer as Paso, tem a eleição ganha. A última pesquisa com cenários eleitorais divulgada pela San Andrés mostra que num eventual primeiro turno entre Massa, Larreta e Milei, o resultado, considerando a margem de erro de dois pontos percentuais, é um tríplice empate. Já numa disputa entre Bullrich, Massa e Milei, a pré-candidata da Juntos pela Mudança derrota seus adversários, alcançando 23,7% dos votos, contra 20,7% de Massa e 15,9% de Milei. Para ganhar uma eleição no primeiro turno são necessários 45% dos votos, ou 40% com uma diferença superior a 10 pontos percentuais em relação ao segundo colocado.
“Bullrich representa uma nova direita que não é elitista e tem apoio popular. Ela soube interpretar medos da população, entre eles o aumento da violência, e suas propostas, ao contrário de Milei, não são descabeladas”, diz Reynoso.
A principal bandeira de Bullrich é ordem, num país no qual os indicadores de insegurança se deterioraram, assim como os sociais e econômicos. Na Grande Buenos Aires, onde a taxa de pobreza, de acordo com dados do Observatório da Dívida Social da Universidade Católica Argentina, supera 50% em alguns municípios, o número de assaltos se multiplicou nos últimos anos.
Bullrich promete segurança, e o foco de sua campanha já provocou comparações entre a pré-candidata e o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, um dos presidentes mais populares – e antidemocráticos – da América Latina. Seu governo reduziu a violência no que era um dos países mais inseguros do continente, com uma política de linha dura que foi alvo de denúncias de ONG locais e internacionais de defesa dos direitos humanos.
“Se vencer as Paso, Bullrich ficará forte, mas o cenário é incerto”, afirma Carlos Fara, diretor da Fara e Associados.
Larreta é a opção moderada da oposição tradicional. A questão é saber se, numa eleição na qual o peronismo deve perder o poder, os argentinos votarão por uma guinada à centro-direita, ou à direita radical. As informações são do jornal O Globo.
