Um novo medicamento aprovado no Brasil capaz de retardar a progressão do Alzheimer não representa apenas a chegada de mais uma terapia. Ele simboliza uma mudança profunda na forma como a medicina passa a enxergar uma das doenças mais devastadoras do envelhecimento humano. Durante décadas, convivemos com tratamentos que atuavam principalmente sobre sintomas — tentando preservar, ainda que temporariamente, memória, comportamento e cognição. Agora, começamos a entrar em uma era em que conseguimos interferir diretamente em mecanismos biológicos ligados à evolução da doença.
A chegada do lecanemabe (comercializado como Leqembi) ao Brasil, prevista para junho após aprovação da Anvisa, reforça esse novo capítulo da neurologia. Vale lembrar que o primeiro medicamento aprovado no País com essa proposta foi o donanemabe (comercializado como Kisunla), liberado pela Anvisa em abril de 2025.
Os dois medicamentos pertencem à classe dos anticorpos monoclonais antiamiloide e são indicados para fases iniciais de Alzheimer, especialmente em pacientes com comprometimento cognitivo leve ou demência leve, com confirmação de depósito de beta-amiloide cerebral.
Como neurocirurgião e neurocientista, atuante no SUS há quase 30 anos, vejo esses avanços com enorme relevância científica — mas também com cautela e senso de responsabilidade. É fundamental compreender que não estamos diante da cura do Alzheimer. Esses medicamentos não fazem o paciente recuperar completamente funções perdidas nem interrompem totalmente a progressão da doença. O objetivo é retardar seu avanço. Ainda assim, o impacto disso pode ser gigantesco.
Pela primeira vez, pacientes e famílias começam a enxergar o Alzheimer não apenas como uma sentença inevitavelmente progressiva, mas como uma condição na qual a medicina passa, de fato, a conseguir interferir biologicamente.
Esse cenário também traz à tona a importância de falarmos sobre um dos maiores desafios da saúde cerebral no Brasil: o diagnóstico precoce. As novas medicações são indicadas justamente para pacientes em estágio inicial ou com comprometimento cognitivo leve. Isso significa que identificar rapidamente os sinais da doença deixa de ser apenas uma recomendação médica e passa a ser um fator decisivo para acesso às novas possibilidades terapêuticas.
O problema é que muitos pacientes ainda chegam tardiamente ao médico neurologista e neurocirurgião. Frequentemente, sintomas iniciais são confundidos com “coisas da idade”. Esquecimentos frequentes, repetição de perguntas, dificuldade de organização, alterações comportamentais e perda progressiva de autonomia acabam sendo normalizados dentro das famílias.
Mas o Alzheimer não começa de um dia para o outro. O cérebro sofre alterações silenciosas durante muitos anos antes que os sintomas mais graves apareçam. Quando a doença se manifesta de forma evidente, parte importante da degeneração neuronal já aconteceu.
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes dessa nova era terapêutica: ela força a sociedade a discutir saúde cerebral antes da perda funcional avançada.
O envelhecimento populacional torna essa discussão urgente. Vivemos um aumento significativo da expectativa de vida, o que é uma conquista extraordinária da medicina moderna. Mas viver mais exige também preservar qualidade cognitiva, autonomia e funcionalidade cerebral. O cérebro precisa envelhecer melhor. Mais saúde é sinônimo de mais futuro.
A questão do acesso
Nas próximas décadas, veremos crescimento acelerado do número de casos de demência no mundo inteiro. Isso terá impacto não apenas sobre os sistemas de saúde, mas também sobre famílias, economia e estrutura social. O Alzheimer é uma doença que afeta não apenas o paciente, mas toda a dinâmica familiar.
Por isso, a chegada de novas medicações também levanta discussões fundamentais sobre acesso e desigualdade.
O tratamento exige critérios rigorosos de indicação, exames específicos para confirmação diagnóstica e monitoramento cuidadoso devido a possíveis efeitos adversos neurológicos, como edema cerebral e micro-hemorragias. Além disso, estamos falando de terapias de alto custo, que dependem de estrutura diagnóstica sofisticada e acompanhamento especializado. A pergunta inevitável será: quem terá acesso?
O Brasil precisará discutir desde já capacidade diagnóstica, formação de especialistas, ampliação de centros de referência e políticas públicas voltadas ao envelhecimento cerebral saudável. Mas talvez o maior impacto desse momento seja simbólico.
A neurologia passa a viver algo semelhante ao que outras áreas da medicina já experimentaram anteriormente: a transição de uma postura predominantemente paliativa para uma abordagem biologicamente modificadora da doença.
Estamos apenas no começo dessa jornada. Ainda existem limitações importantes, dúvidas científicas e desafios logísticos enormes. Mas o fato de finalmente termos terapias aprovadas capazes de interferir na progressão do Alzheimer muda profundamente o horizonte da medicina cerebral.
Talvez estejamos entrando no início de uma nova era do cuidado cognitivo. E isso deve transformar a forma como a sociedade olhará para prevenção, envelhecimento, memória e saúde cerebral daqui para frente. (Fernando Gomes/Agência Estado)
