O desembargador Magid Nauéf Láuar, responsável pelo voto inocentando o réu por estupro de vulnerável que prevaleceu entre os colegas do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, é investigado pela Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) após ser alvo de acusações de abuso.
Nesta quarta-feira (25), Magid Nauef Láuar, da 9ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), retomou a condenação do homem de 35 anos acusado de estupro de vulnerável contra uma menina de 12, em Indianópolis (MG). O magistrado, que antes havia argumentado que existia “vínculo afetivo consensual” entre o réu e a vítima, acolheu um recurso apresentado pelo Ministério Público do estado.
Em nota, o TJ-MG informou que o desembargador, em decisão monocrática, “acolheu os embargos de declaração com efeitos infringentes opostos pelo Ministério Público e negou provimento aos recursos de apelação do processo envolvendo estupro de vulnerável na Comarca de Araguari”.
Na terça-feira, duas vítimas foram ouvidas por representantes do órgão no interior do Estado. Um dos relatos é do servidor público Saulo Láuar, de 42 anos, primo em segundo grau do magistrado.
Ele afirma que o magistrado tentou abusar sexualmente dele na adolescência, quando tinha 14 anos e trabalhava com o parente. Ao jornal O Globo, ele relatou que decidiu falar pela primeira vez publicamente sobre o ocorrido depois da repercussão da decisão capitaneada por Magid Láuar.
“Estava levando a minha vida com esse trauma da maneira que dava. Mas me vi na obrigação de não deixar isso passar e resolvi denunciar”, conta Saulo em sua primeira entrevista sobre o caso. “Nunca tinha falado sobre o que passei. Minha mãe só soube depois de anos, e mais ninguém. Era um segredo meu.”
Nas redes sociais, em postagem de grande repercussão, Saulo narrou que o abuso só não se consumou porque ele conseguiu fugir:
“O que ele fez comigo causou muita tristeza. Uma tristeza latente. Ela fica ali. Se mistura com outras dores, alimenta outras dores. E também uma vontade de estar sempre fugindo, necessidade de me esconder o tempo todo.”
Na mesma publicação, uma mulher comentou afirmando ter sido “vítima dessa mesma pessoa”. Ela também foi ouvida pela Corregedoria do CNJ. Já o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) informou que recebeu “uma representação noticiando os fatos em questão” e também instaurou procedimento administrativo para apuração de eventual falta funcional.
“Na época, eu e minha irmã trabalhávamos para a família dele, eu trabalhava para a irmã, e a minha irmã para a mãe. Eu era nova, confiava naquele lugar e guardei tudo em silêncio por muito tempo. A gente tenta seguir a vida, fingir que esqueceu, mas não esquece. Fica guardado na memória, no corpo e na alma. Seu desabafo trouxe à tona lembranças difíceis, mas também me fez perceber que o silêncio só protege quem errou. Hoje me recuso a continuar calada”, escreveu a mulher na postagem de Saulo.
De acordo com o servidor público, a publicação foi um “desabafo” sobre o que viveu, uma vez que comoção pelo caso da menina de 12 anos fez ressurgir “todo o episódio”. Ele era office boy do primo e, àquela altura, o admirava.
“O meu relato ganhou uma proporção que é resultado de um desconforto social causado pela absolvição no caso que ele julgou”, resume. As informações são do jornal O Globo.
