As sessões CPI da Covid provocaram reação enfática de César Dario Mariano da Silva. O procurador do Ministério Público de São Paulo compara as investidas dos parlamentares ao… tribunal do santo ofício da Inquisição. “Testemunhas são constrangidas a falar o que alguns senadores querem. Caso contrário, são massacradas e humilhadas”, destacou nas redes sociais.
Disse que ali “a busca da verdade é um mero detalhe”, resultando em “provas imprestáveis juridicamente”.
O professor da Escola Superior do MP de SP ainda, no post, sugere que estudantes assistam às sessões para aprender… como não agir.
Por outro lado, a busca da verdade tampouco é perseguida por meio de parlamentares que torcem e operam de maneira clara para que a “testemunha” se saia bem.
Os senadores da situação levantam a bola para o depoente cortar – seja ela uma bola real, baseada na “ciência”, ou não.
“Gabinete paralelo”
Um vídeo de uma reunião no Palácio do Planalto reforça a existência de um “gabinete paralelo” que aconselhava o presidente Jair Bolsonaro sobre o combate à pandemia.
A reunião foi no dia 8 de setembro de 2020. Os vídeos foram publicados, nesta sexta (4), pelo site “Metrópoles”, e o conteúdo permanece nas redes sociais do presidente Jair Bolsonaro desde setembro. É o próprio Bolsonaro quem preside a reunião.
Entre os participantes estão o deputado Osmar Terra, do MDB, a médica Nise Yamaguchi, ouvida nesta semana pela CPI da Covid, o virologista Paulo Zanotto e outros profissionais de saúde. Nenhum deles usava máscara.
O vídeo reforça a suspeita da existência de um “gabinete paralelo” de aconselhamento ao presidente. A existência do grupo foi revelada pelo ex-ministro da Saúde, Henrique Mandetta, em depoimento à CPI. Mas foi negada por integrantes do governo e por depoentes na CPI da Covid.
No encontro, os especialistas apresentaram a Bolsonaro opiniões contrárias às vacinas e favoráveis a medicamentos ineficazes contra a covid. Na época da reunião, a Pfizer já havia proposto a venda de vacina ao Brasil, mas o governo deixou as ofertas sem resposta.
Na reunião, o virologista Paolo Zanotto aconselhou o presidente a tomar “extremo cuidado” com os imunizantes contra a covid.
“A gente tem que tomar um cuidado enorme com isso. A gente tem que ter vacina, ou talvez não, porque o grande problema dos coronavírus é que eles têm, intrinsecamente, problemas no desenvolvimento vacinal. A gente não tem condições, neste momento, de dizer que qualquer vacina que poderia estar realisticamente no que eles chamam de fase 3. Isso é muito sério. Então, nesse sentido, a gente precisaria, a minha sugestão, até enviei uma mensagem ao Executivo, mandei a carta para Weintraub, para o Arthur, talvez fosse importante se montar um grupo e a gente poderia ajudar”, disse o virologista Paolo Zanotto na ocasião.
Arthur Weintraub, irmão do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, era assessor da presidência à época. A CPI investiga a participação dele na formação do grupo de aconselhamento ao presidente.
Usando uma expressão inglesa, Zanotto propôs a criação de um “shadow cabinet”, um “gabinete da sombra”, em tradução literal. Em português, é o que se chama de “gabinete paralelo”, atuando para Bolsonaro longe dos olhos da imprensa.
“Eu gostaria de ajudar o Executivo a montar um ‘shadow board’, como se fosse um ‘shadow cabinet’. Esses indivíduos não precisam ser expostos, digamos assim, a popularidade”, sugeriu Zanotto na reunião.
Em seguida, Bolsonaro falou aos médicos que vetou trecho de uma lei que estipulava celeridade da Anvisa na aprovação de remédios. O Congresso derrubou o veto posteriormente. O presidente reforçou a retórica antivacina.
“Eu falei outro dia: ‘Ninguém vai ser obrigado a tomar a vacina’. E o mundo caiu na minha cabeça”, disse o presidente.
Na reunião, Osmar Terra aparece com destaque. Ele foi homenageado pela médica Nise Yamaguchi, que se disse honrada por ter trabalhado com ele. Bolsonaro chamou Osmar Terra de assessor.
“Eu vou entrar em contato imediatamente com o ministro da Saúde para ver a saída dessa aqui e aviso. Ou então você mesmo assessor, meu aqui [Osmar Terra], entra em contato com Pazuello. A gente vê o que pode fazer para atender”, disse Bolsonaro na reunião.
Nas imagens, não fica claro a que saída o presidente se referia. Em outro momento, Osmar Terra defendeu o uso de hidroxicloroquina, contrariando as evidências científicas que já estavam disponíveis, na época, que não recomendavam o uso para covid. Ele apontou um cardiologista para dar suporte à tese.
