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Propósito e código do tempo: a nova arquitetura dos negócios sustentáveis

Na sequência das reflexões que compartilhei recentemente, sigo com o coração e a mente ainda pulsando pelas ideias que emergiram do evento sobre inteligência artificial no marketing, realizado no dia 29 de abril na Unisinos, em Porto Alegre. Foram dias de intensa digestão cognitiva, em que cada painel e palestra parecia abrir novas janelas para o futuro. A sensação de desassossego inicial se transformou em uma busca por sentido, e é justamente nesse ponto que quero avançar: como unir propósito e código do tempo na construção de negócios sustentáveis.

O propósito, para mim, é um valor primordial. É o eixo que orienta minhas escolhas, minha forma de agir e de desenvolver negócios. Sem propósito, qualquer iniciativa corre o risco de se perder em meio à aceleração das mudanças. Mas, como lembrou um dos palestrantes, o futurista Thiago Mattos, há um perigo real de que o propósito se torne apenas discurso, um slogan vazio. Sua crítica é válida: muitas empresas falam de propósito sem conectar esse valor às forças reais que moldam o presente.

É aqui que entra o conceito de “código do tempo”, tão bem decifrado por Alvin e Heidi Toffler. Eles nos ensinaram que o futuro não é adivinhação, mas leitura inteligente dos sinais do presente. O código do tempo é justamente essa capacidade de perceber padrões, rupturas e tendências que já estão em movimento. Heidi e Alvin foram mestres nisso: décadas atrás, quando eu ainda era bebê, eles já desenhavam a revolução informacional que hoje vivemos.

Heidi, em especial, merece destaque. Coautora de todas as obras, ela ficou em segundo plano porque, na época, a presença feminina em produções intelectuais era vista como algo que poderia enfraquecer o conteúdo. Essa invisibilidade não diminui sua importância. Pelo contrário, reforça a necessidade de resgatar sua contribuição. A partir de agora, sempre que mencionar os Toffler, farei questão de citar Heidi e Alvin juntos.

O que me fascina é como eles já antecipavam a importância da ecologia e da sustentabilidade. Para os Toffler, não haveria futuro sem novos valores culturais e ecológicos. Eles enxergaram que a sobrevivência das sociedades dependeria da capacidade de integrar tecnologia com respeito ao meio ambiente e às culturas locais. Essa visão, escrita décadas atrás, é hoje uma urgência incontornável.

Portanto, unir propósito e código do tempo é mais do que uma escolha estratégica: é uma necessidade vital. O propósito dá sentido, mas o código do tempo dá direção prática. Negócios sustentáveis precisam dessa dupla força. Precisam de valores autênticos que inspirem e legitimem, e de leitura atenta dos sinais que indicam para onde o mundo está caminhando.

O evento na Unisinos me deixou claro que estamos diante de uma encruzilhada. A inteligência artificial, a crise climática, a economia digital e as tensões sociais são sinais inequívocos do código do tempo. Cabe a nós, empreendedores e líderes, transformar propósito em prática, conectar valores a ações concretas e construir negócios que não apenas sobrevivam, mas que sejam agentes de transformação positiva.

Heidi e Alvin nos mostraram que o futuro é uma construção consciente. Hoje, mais do que nunca, precisamos de propósito autêntico e da coragem de decifrar o código do tempo. Só assim poderemos reescrever o futuro de forma resiliente, justa e sustentável.

– Renato Zimmermann desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (Contato: rena.zimm@gmail.com)

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