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Proteína faz mal? Como as redes sociais fabricaram uma polêmica

Não há evidências de que o maior consumo de proteínas reduza a longevidade, mas priorizar fontes proteicas de origem vegetal parece ser mais vantajoso. (Foto: Reprodução)

Nesses tempos atuais em que as redes sociais dominaram a forma como nos comunicamos, a sua atenção passou a ser a mais importante commodity. Tudo ali funciona para captar e manter seus olhos e ouvidos presos na tela do celular. Infelizmente, nesse caso, a natureza humana evoluiu para deixar passar despercebido o ordinário e focar no estranho, no diferente, no extraordinário. Não tardou, portanto, para que os mercadores da atenção perceberem que, para vencer nesse competitivo mercado, eles precisavam criar conteúdos polêmicos, estranhos, disruptivos. Não é preciso ter lógica, coerência ou qualquer base factual para prender nossa atenção. Só precisa mexer com a emoção. Assim, você interage com aquela publicação, comenta, compartilha com seus contatos…. No fim, isso dá ainda mais visibilidade àquele conteúdo.

Como se isso já não causasse estrago grande o suficiente no debate de pautas sociais e políticas, acirrando atitudes divisivas e segregantes, ao invés de promover conciliação entre grupos com visões diferentes, o mercado da atenção tem tido impactos importantes na qualidade da informação em saúde que chega à população.

Um sintoma claro disso é o alcance dos bons divulgadores das ciências médicas nas redes sociais. Enquanto médicos sérios que se pautam em ciência e evidência de boa qualidade mal chegam aos 300 mil seguidores, aqueles que explicitamente divulgam informações que mais se parecem com curandeirismo da Idade Média e fisiologia de botequim, lucrando com charlatanismo moderno, ultrapassam os 7 dígitos com facilidade.

Cenário semelhante pode ser visto nas outras áreas da saúde, como as ciências do exercício e a nutrição, nas quais (des)influenciadores muito vocais e, por isso, com muito alcance, fazem constantes distorções e extrapolações indevidas da ciência, muitas vezes contradizendo consensos bem estabelecidos, para alavancar uma imagem fabricada de autoridade e, claro, auferir lucros com isso. Para os menos atentos, eles podem até se passar por divulgadores da ciência, mas são verdadeiros mercadores da ciência, uma “especialidade” do mercado da atenção.

A polêmica da vez, como tem sido nos últimos anos, sequer deveria ser uma polêmica. É apenas mais uma não-pauta, um factoide criado por alguns desses mercadores da ciência, que agora decidiram chamar a atenção alardeando que o consumo de proteínas faz mal à saúde. A oportunidade de fazer barulho surgiu com a publicação recente de um artigo de revisão em que os autores expuseram seu ponto de vista sobre como a redução do consumo de proteínas aumentava o tempo de vida em diversas espécies: de vermes a moscas, passando por peixes e leveduras. Você leu certo: não há qualquer menção a estudos com humanos.

A associação entre proteína e menor sobrevida, portanto, é fortemente baseada em informações sobre mecanismos moleculares e processos biológicos, e carece de integração com evidência clínica em humanos. Não há uma diferenciação clara entre o que seria efeito da restrição de proteínas, e do que seria efeito da restrição calórica (intervenção que, ao menos em animais de laboratório, sabidamente aumenta a sobrevida).

Essas são constatações óbvias que qualquer estudante ainda na graduação com o mínimo de letramento científico saberia fazer. Mas, para os mercadores da ciência, isso não importa, e o artigo em si já é suficiente para começar uma nova e lucrativa polêmica.

A sustentação dessa tese por parte dessa turma também usa uma seleção criteriosa e enviesada (o famoso “cherry-picking”) de alguns poucos estudos em humanos que, de fato, mostraram que o consumo de proteína na dieta estaria associado com maior mortalidade entre pessoas que consumiam maiores quantidades desse nutriente. Um deles, por exemplo, mostrou mortalidade por qualquer causa 75% maior, e mortalidade por câncer 4 vezes maior. Esse trabalho tem diversas falhas metodológicas graves. Dentre elas, a classificação do nível de ingestão proteica com base no relato alimentar de um único dia (como se um dia representasse o consumo habitual), e a classificação do consumo de proteína em termos percentuais (isto é, relativos ao consumo total de calorias).

Contrário ao que os próprios autores defendem, os dados mostram que a associação entre proteína e risco desaparece quando se considera apenas proteínas de fontes alimentares vegetais. Ou seja, o risco pode não ter a ver com a proteína em si, mas com outras substâncias contidas nos alimentos ricos em proteínas. No caso das fontes animais de proteína, é comum que elas apresentem mais gorduras saturadas (que sabidamente aumentam a mortalidade cardiovascular) e diversas substâncias carcinogênicas.

Novamente, essas nuances todas são ignoradas pelos que fazem o ruidoso alarme dos “perigos” das proteínas. Ignoram também outras pesquisas, de melhor qualidade metodológica, que mostram exatamente o oposto. É o caso, por exemplo, de um estudo clínico realizado na mesma coorte, porém com refinamentos metodológicos importantes: avaliação do consumo alimentar habitual (e não do consumo pontual de um único dia), melhor classificação dos níveis de ingestão de proteína, e maior número de eventos estudados. Pode soar cientifiquês, mas esses são cuidados metodológicos importantes para reduzir a ocorrência de achados espúrios e aumentar o grau de confiança nas conclusões.

Em tempo, esse e outros estudos de melhor qualidade não mostraram associação entre consumo de proteína e maior risco de morte, com alguma evidência que até aponta para o efeito inverso: consumo de proteína seria protetor – o que faz sentido, já que a perda de massa muscular, a fraqueza muscular e a fragilidade são características comumente associadas com maior mortalidade, e que o consumo de proteínas ajuda a combater.

A moral da história é que não há evidências fortes o suficiente que justifiquem qualquer tipo de sugestão de que comer mais proteína, dentro daquilo que sabemos ser seguro (limite de aproximadamente1,6 gramas a cada 1 kg de peso corporal por dia) causa dano a seres humanos – com exceção, claro, daqueles que, por razões muito específicas, precisam reduzir o consumo proteico. Ao contrário, o que sabemos atualmente é que atingir as metas de proteína pode proteger contra a perda de força e a massa muscular, adiando o quadro de fragilidade típico das pessoas mais longevas.

Reduzir as fontes proteicas que carregam consigo substâncias que podem ter efeito deletério, trocando-as por fontes mais saudáveis (por exemplo, substituir carnes vermelhas processadas por alimentos vegetais) é uma decisão sábia. Mais sábio ainda é aprender a diferenciar o divulgador de ciência do mercador da ciência. (Guilherme Artioli/O Estado de S.Paulo)

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