A tese que traz as críticas mais brandas à política econômica do governo Dilma Rousseff e propostas como a volta da CPMF, o imposto sobre o cheque, foi aprovada no primeiro dia do Congresso Nacional do PT, que começou nesta quinta (11) em Salvador (BA). O documento intitulado “Carta de Salvador” tem o apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da corrente majoritária do partido, a CNB (Construindo um Novo Brasil).
Foram apresentados seis documentos elaborados por diferentes correntes petistas. Os representantes de cada um deles fizeram um balanço sobre a crise atual do partido e apresentaram propostas para que a sigla resgate sua credibilidade.
Markus Sokol, integrante da ala mais à esquerda do PT e defensor da tese “Resgatar o Petismo”, começou sua apresentação saudando o ex-tesoureiro da sigla João Vaccari Neto, preso desde abril deste ano na esteira das investigações da Operação Lava-Jato.
“Antes de começar, gostaria de prestar uma homenagem ao companheiro Vaccari, que foi preso injustamente”, disse Falcão, arrancando cerca de três minutos de palmas da plateia, que chegou a ficar de pé por alguns instantes para a homenagem.
O discurso de Sokol foi o mais duro em relação ao governo Dilma Rousseff. Ele criticou a “operação abafa” feita para calar as críticas internas ao ministro da Fazenda Joaquim Levy durante o encontro.
“Na segunda soube que Levy não pode ser tratado como Judas, na terça ele virou Jesus Cristo e hoje vi que ele subiu ao céu e nem criticado pode ser.”
Dilma, Lula e o presidente do PT, Rui Falcão, participaram da cerimônia de abertura do congresso. Falcão defendeu que os militantes do partido desencadeiem “reação vigorosa” contra os que tentam “destruir” a legenda.
O congresso petista ocorre em meio a um cenário inédito na história do partido: a crise não é apenas ética, motivada pelo caso do petrolão. Episódio semelhante ocorreu dez anos atrás, quando a sigla foi atingida pelo escândalo do mensalão. Dessa vez, a base está descontente com algo que, na hierarquia petista, é muito mais grave do que um gigantesco esquema de corrupção: a adoção de medidas tidas como neoliberais na economia, como a redução de benefícios trabalhistas e o corte orçamentário do governo que não poupou as áreas sociais.
Tumulto
Manifestantes contra e a favor do PT se envolveram em um tumulto na noite desta quinta, a poucos metros do hotel onde o partido realiza seu congresso. Militantes ligados ao Movimento Brasil Livre, ao Vem Pra Rua e a outras entidades contra o governo informaram a Polícia Militar que utilizariam um carro de som e ocupariam uma praça perto do local onde ocorre o Congresso do PT.
Mas os petistas se mobilizaram para abafar o protesto. Em maioria diante de aproximadamente cinquenta militantes anti-PT, chegaram mais cedo e ocuparam a praça. Antes que a Tropa de Choque da PM formasse um cordão de isolamento, alguns petistas hostilizaram os manifestantes da oposição. Houve empurra-empurra e um militante do PT tentou arrancar uma bandeira do Brasil das mãos de um adversário político. Em seguida, a polícia controlou a situação mas pediu que o carro de som dos manifestantes contrários ao governo deixasse o local.
O governador da Bahia, Rui Costa (PT) foi vaiado na abertura do encontro. Ao discursar, o governador foi interrompido por militantes que gritavam “Cabula” – bairro de Salvador onde nove jovens foram mortos pela PM em fevereiro – e “não ao extermínio da juventude negra”. Na ocasião, o governador afirmou que não havia elementos para afastar os policiais e comparou os mesmos a um “artilheiro em frente ao gol”.
Conquista da militância
Em seu discurso, Lula pediu que o partido e o governo Dilma não se acomodem diante da atual conjuntura do País. Ele também afirmou que o PT está “machucado”, mas “bem vivo”.
“Há dez anos que os jornalistas decretam a morte do PT. O PT continua vivo e muito preparado para novos debates, novos combates. ”
Dilma dedicou seu discurso à tentativa de reconquistar a militância petista para a defesa de seu governo. Ciente da rejeição inédita do partido à política econômica, ela tentou convencer a plateia de que não traiu os princípios do partido.
Não houve vaias, mas a recepção foi fria durante os mais de 50 minutos de discurso. A presidenta afirmou à militância que o ajuste fiscal é necessário para garantir a retomada do crescimento.
“Nós não mudamos de lado. Nós não alteramos os compromissos que temos com o Brasil e que o PT defende desde que nós chegamos ao governo federal.” (Folhapress)
