Ícone do site Jornal O Sul

Quando a opinião encontra a memória de quem viveu a história

(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Escrever um artigo de opinião é, antes de tudo, expor uma maneira de enxergar o mundo. E talvez uma das partes mais interessantes desse exercício seja descobrir que aquilo que pretendíamos dizer pode ser recebido de uma forma muito diferente por quem lê. Foi exatamente o que aconteceu depois da publicação de meu último artigo em O SUL, “Do carnaval político às bolhas digitais: o Brasil diante da urna”.

Recebi uma crítica que me fez pensar. Não porque tenha mudado necessariamente minha posição, mas porque trouxe ao debate uma experiência de vida diferente da minha. O autor nasceu em 1961 e era estudante universitário em 1978. Viveu, portanto, a juventude em um período em que a reconquista das liberdades políticas e do direito de escolher os próprios caminhos tinha um significado muito concreto. Para quem atravessou aquela época, democracia não era uma palavra abstrata. Era uma conquista.

E talvez esteja justamente aí a diferença de nossas leituras.

Meu artigo não pretendia fazer uma defesa de um passado político nem sugerir que o Brasil de hoje devesse olhar para trás com nostalgia. Quando usei a imagem do carnaval, procurei estabelecer uma metáfora para falar de nossa relação com a política. A intenção era provocar uma reflexão sobre como o debate público foi se transformando, especialmente com a chegada das redes sociais, das bolhas digitais e da crescente incapacidade de ouvir quem pensa diferente.

Mas compreendo que a expressão “carnaval político” possa ter sido interpretada como uma crítica à própria mobilização política. E essa não era a intenção.

Ao contrário: uma sociedade politicamente ativa é desejável. A participação das pessoas nas decisões que afetam suas vidas é essencial. A resistência cívica, quando exercida dentro das regras de uma sociedade democrática, é uma força importante de transformação. E quem viveu períodos de restrição de liberdades sabe, talvez melhor do que qualquer outra geração, o valor de poder se manifestar, votar, discordar e cobrar.

A crítica que recebi também chama atenção para outro aspecto: a percepção de que fomos tolerando, ao longo do tempo, abusos, excessos e uma deterioração da qualidade do debate público. É uma reflexão que merece ser considerada. Não há sociedade saudável quando cidadãos deixam de participar ou passam a acreditar que a política é assunto exclusivo de políticos, partidos, governos ou grupos organizados.

Mas há uma diferença importante entre politização e radicalização.

Precisamos de cidadãos mais atentos, mais informados e mais participativos. Precisamos de pessoas dispostas a defender suas convicções. Precisamos, inclusive, de conflito de ideias. O que não precisamos é transformar o adversário em inimigo, a divergência em ameaça e a política em uma guerra permanente.

Talvez este seja o ponto em que meu artigo e a crítica que recebi possam se encontrar.

A democracia não precisa de uma sociedade apática. Precisa justamente do contrário: cidadãos conscientes de seu papel. Mas também precisa de uma cultura capaz de preservar algum espaço para a dúvida, para a escuta e para a convivência com aquilo que nos contraria.

As novas gerações não têm obrigação de reproduzir as experiências das gerações anteriores. Mas têm a responsabilidade de compreender o preço das conquistas que receberam. E nós, que pertencemos às gerações anteriores, também precisamos compreender que o mundo mudou e que novas formas de participação política estão surgindo.

Talvez o grande desafio diante da próxima urna não seja escolher entre politização e despolitização, entre passado e futuro, entre um lado e outro. Seja recuperar algo mais simples e mais difícil: a capacidade de participar sem deixar de reconhecer a humanidade de quem pensa diferente.

Foi essa, afinal, a intenção do meu artigo. Não encerrar uma discussão, mas provocá-la.

E se uma opinião publicada em um jornal provoca uma crítica, gera reflexão e abre espaço para uma nova conversa, talvez ela tenha cumprido justamente a sua função.

Porque uma sociedade viva não é aquela em que todos pensam igual. É aquela em que ainda somos capazes de conversar sobre aquilo que nos separa — sem deixar que isso nos impeça de construir aquilo que nos une.

(Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética. Contato: rena.zimm@gmail.com)

Sair da versão mobile