Tem gente que acorda, toma banho, se arruma, leva os filhos para a escola, responde mensagens, trabalha, participa de reuniões, paga contas, sorri para as fotos e até faz piada.
Por fora, tudo está funcionando. Por dentro, quase nada. É como se a vida tivesse perdido a cor, mas ninguém tivesse percebido. E, talvez, nem a própria pessoa.
“Eu só estou cansada.”
“É uma fase.”
“Estou trabalhando demais.”
“Depois melhora.”
Só que o depois vai passando. E aquilo que antes dava prazer começa, aos poucos, a perder o sentido. O encontro com os amigos já não anima tanto. O filme que antes fazia rir não provoca nada. O domingo parece apenas mais um dia. O abraço é recebido, mas não necessariamente sentido.
E, em muitos casos, algo começa a mudar também na vida sexual. O desejo diminui. O beijo já não desperta a mesma vontade.
O corpo parece estar presente, mas a pessoa não está inteira nele. E, aqui, existe uma conversa importante que ainda fazemos pouco: a falta de desejo sexual pode ser um sinal de que alguma coisa está acontecendo muito além do quarto.
A depressão pode envolver perda de prazer e interesse, cansaço, alterações no sono, concentração prejudicada, baixa autoestima e desesperança. A redução da libido também pode aparecer nesse contexto.
O problema é que, quando isso acontece dentro de um casamento, é muito fácil interpretar tudo pelo caminho errado.
“Ele não me deseja mais.”
“Ela não sente mais atração por mim.”
“Nosso casamento esfriou.”
“Deve ter outra pessoa.”
E, enquanto o casal procura uma explicação para o que acontece entre os dois, talvez exista uma dor silenciosa acontecendo dentro de um deles.
Não significa que toda falta de desejo seja depressão. Longe disso.
Desejo sexual é complexo e pode ser afetado por fatores físicos, emocionais, relacionais, hormonais, estresse, medicamentos e muitas outras condições. Alguns antidepressivos também podem provocar redução da libido e outras dificuldades sexuais.
Por isso, investigar é mais importante do que acusar. Mas existe uma pergunta que talvez você precise fazer a si mesmo: “Quando foi que eu parei de sentir prazer nas coisas que antes faziam sentido para mim?”
Não apenas no sexo. Na vida. Talvez, você esteja vivendo no piloto automático. Cumprindo todas as suas responsabilidades e, ao mesmo tempo, sentindo que está emocionalmente distante de si mesmo.
Talvez, esteja dizendo “está tudo bem” tantas vezes que começou a acreditar nisso. Talvez, ninguém saiba que, depois que você fecha a porta de casa, existe um cansaço que não é apenas físico.
E, talvez, você tenha aprendido a funcionar tão bem que ninguém percebeu que você está sofrendo. Mas o sofrimento não precisa chegar ao ponto de impedir você de levantar da cama para ser levado a sério.
A depressão é uma condição de saúde mental que pode afetar relacionamentos, trabalho, prazer, energia e sexualidade. E existe tratamento.
Por isso, se você perceber que perdeu o prazer, está constantemente cansado, mais irritado ou apático, se afastou das pessoas, deixou de se interessar por coisas de que antes gostava ou notou uma mudança persistente no desejo sexual, não transforme isso em culpa.
Transforme em investigação. Converse com um profissional. Procure avaliação psicológica e, quando necessário, médica.
E, se você está em um relacionamento, converse também com quem está ao seu lado. Não transforme a ausência de desejo em uma sentença sobre o amor.
Às vezes, antes de perguntar “por que você não me quer?”, precisamos perguntar: “O que está acontecendo com você?”
Porque algumas pessoas não perderam o desejo pelo parceiro. Estão, pouco a pouco, perdendo o contato com a própria vida.
E, quando a saúde emocional começa a ser cuidada, não estamos apenas tentando recuperar o sexo. Estamos tentando devolver às pessoas a possibilidade de sentir. Prazer. Presença. Vínculo. Vontade. De sentir-se novamente capaz.
Se você se reconheceu nesta crônica, não espere a dor ficar grande o suficiente para merecer cuidado. Pedir ajuda não é admitir fraqueza. É interromper o silêncio. E, às vezes, é justamente aí que começa o caminho de volta para si.
Até a próxima consulta.
* Tatiane Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante
