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Reflexões a partir do Fórum da Liberdade

(Foto: Divulgação)

Essa semana, tive a honra de falar no Fórum da Liberdade. Foi um momento muito importante: afinal, para quem, como eu, pensa o tempo todo – o tempo todo! – em como melhorar qualquer coisa (a minha vida, a dos meus filhos, a organização da casa, a agenda da semana ou, enfim, o mundo!), ser voz em um evento que tem como foco, exatamente, repensar nosso país pelo viés liberal foi, de fato, uma realização. Cereja do bolo? O tema era uma provocação: “o Brasil tem jeito?”. Já fica a pergunta para você, caro leitor.

Antes, contudo, de adentrar no tema dessa coluna, preciso relembrar: o que é o liberalismo, afinal? O liberalismo é uma filosofia política que coloca a liberdade individual no centro, defendendo que o indivíduo vem antes do Estado e deve ter o direito de pensar, se expressar, trabalhar e fazer suas próprias escolhas, desde que respeite o direito do outro. Nesse modelo, o Estado existe, mas com funções limitadas — garantir segurança, proteger direitos e assegurar regras claras — sem interferir excessivamente na vida das pessoas ou na economia. Em essência, liberalismo é liberdade com responsabilidade: não é ausência de regras nem libertinagem, mas a crença de que uma sociedade de indivíduos livres e responsáveis é mais justa e próspera do que uma controlada pelo Estado. Por consequência, o assistencialismo é fortemente refutado, devendo existir apenas quando estritamente necessário.

Por que esse aspecto é importante? Porque, hoje, o Brasil conta com quase metade da população dependente de bolsa-família, além de uma série de outros benefícios dados pelo governo que, ao invés de terem se provado como trampolim para uma vida mais digna, acabam agindo de forma contrária: gera uma população que não avança, porque não incentivada a buscar a própria autonomia.

Autonomia. Esse era o tema do debate do qual participei: até que ponto a tutela excessiva do estado sobre a mulher interferiria na sua autonomia. Baita reflexão, hein?

Se o feminismo, como movimento social, foi absolutamente essencial para nós, mulheres, no decorrer do século XX, o feminismo de Estado passou a ser uma estrutura de poder. Ele já não diz “você pode”. Ele diz: “você é vulnerável”. E, para sustentar essa ideia, construiu-se uma narrativa conveniente: a vilanização do homem. O homem deixa de ser parceiro, pai, aliado, e passa a ser uma ameaça estrutural. Pronto. Está criado o problema. E, como todo bom problema, surge a solução: o Estado como protetor. Só que, ao mesmo tempo, vem o discurso paralelo de que a mulher pode tudo. Empoderamento. Bonito, inspirador, compartilhável, porém, incoerente. Não dá para dizer que a mulher é forte, autônoma e capaz, e tratá-la, simultaneamente, como alguém que precisa de tutela constante. Isso não é empoderamento. É dependência com discurso bonito.

Aí começa o problema de verdade. Nas últimas décadas, o Brasil assistiu à fragilização de duas bases fundamentais: família e educação. Sim, família — aquilo que muitos hoje tratam como ultrapassado, mas que continua sendo o principal espaço de formação de segurança emocional, identidade e autoconfiança. É a família que fortalece uma criança, seja homem ou mulher. Não o Estado. (Parêntesis importante: a família não precisa ser a tradicional para ser forte: ela precisa é ser o local seguro para permitir crescer com amor e respeito. Fecha parêntesis). Paralelamente, temos uma educação básica insuficiente. Isso é inquestionável. Sem conhecimento, acontece algo simples e perigoso: você passa a repetir o discurso do outro sem sequer perceber. Some-se a isso anos de uma agenda que confundiu liberdade com libertinagem (e o uso do corpo como único fator de vantagem no mercado é a maior prova disso), independência com isolamento e coletivismo com virtude, e temos o cenário perfeito: uma geração que cresceu com estruturas emocionais fragilizadas, sem base educacional sólida para desenvolver pensamento crítico e, ainda assim, convencida de que é plenamente empoderada.

Mas empoderada com base em quê? Afinal, autonomia de verdade não nasce de discurso. Nasce de estrutura. E estrutura tem três pilares: base emocional, educação e independência financeira. Sem isso, o que existe é sensação de poder (sabor poder?), não poder real. E aqui entra outro ponto curioso: a demonização do empreendedorismo. Empresários viraram vilões, o lucro virou suspeito, o crescimento econômico virou quase um problema moral. Só esqueceram de um detalhe: é o mercado que permite à mulher não depender de ninguém. Sem renda, não existe liberdade. Existe dependência.

E não para por aí. A própria ciência já mostra que o ser humano não foi feito para viver isolado. Somos seres relacionais. Vínculo não é fraqueza. É estrutura. Então não, autonomia não é não precisar de ninguém. Autonomia é não depender, mas saber se conectar. E, especialmente nesse aspecto, a mulher costuma ser muito mais eficiente.

Em síntese, é preciso criar um ser humano autoconfiante (isso depende de amor, e o amor básico vem da família), com acesso a informações e oportunidade real de conhecimento (sem isso, não existe autonomia) e oferecer oportunidades reais de mercado, porque sem renda não existe liberdade. Simples, prático e eficaz. Isso é empoderamento real. Não o que se sente, mas o que se sustenta.

Todo mundo já sabe o quão forte é a mulher. O que não temos de força física, temos de força emocional. Logo, superadas as questões práticas efetivamente existentes no século passado, é hora de dar um passo muito importante: será a mulher forte o suficiente para viver sem tutela? Claro que sim! Liberdade de verdade não se constrói com dependência. Se constrói com base, responsabilidade e escolha. E talvez esteja na hora de parar de repetir discursos prontos e começar a encarar a realidade. No final das contas, nem toda mulher que se sente empoderada é livre — e nem toda política que promete proteção entrega autonomia.

Instagram: @ali.klemt

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