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Reflexões sobre a tragédia climática de 2024 inspiram livro de historiadora e psicoterapeuta gaúcha

Angélica Boff autografa a publicação na noite desta quarta-feira. (Foto: Divulgação)

Depois de viver por dentro a maior catástrofe climática do Rio Grande do Sul, atuando como voluntária em abrigos, no apoio a equipes de resgate e no acolhimento e escuta de vítimas, bem como de outros voluntários e na mobilização de redes de apoio, a historiadora e psicoterapeuta Angélica Boff decidiu contar em livro as histórias que vivenciou naquele nem tão distante maio de 2024.

Em “A Enchente Que Não Acabou – o Que a Tragédia Revela Sobre Nós” (Carta Editora), a autora articula conhecimentos de história, antropologia e diferentes abordagens psicológicas para apresentar ao leitor uma vigorosa reflexão sobre os diversos aspectos do trauma que a enchente impôs a diferentes pessoas.

A publicação tem lançamento com sessão de autógrafos a partir das 18h desta quarta-feira (21), no Espaço Amelie. Endereço: rua Vieira de Castro nº 439 (a poucos metro da Jerônimo de Ornelas), bairro Santana.

Ao longo de 240 páginas ilustradas por fotografias em preto-e-branco que compõem uma narrativa à parte sobre perdas, danos e solidariedade, a autora revela como os impactos não apenas podem ser duradouros na vida
dos atingidos, como revelam estruturas psicológicas e culturais, de toda uma sociedade.

São histórias de vida distribuídas em 12 capítulos que convidam a uma reflexão sobre valores humanos, reconstrução, trauma, memórias e a vida após a baixa das águas – sem esquecer o que a catástrofe representou
para os seres sencientes, os milhares de pets e outros animais atingidos pelo flagelo, comenta a autora:

“Mesmo vivendo em um mundo cada vez mais marcado por desastres socioambientais, continuamos agindo como se tudo pudesse voltar ao normal. Mas que normalidade é essa? O que uma tragédia é capaz de revelar sobre a forma como vivemos, sentimos e organizamos a sociedade? Foi a partir dessas perguntas que nasceu este livro”.

Segundo Angélica Boff, são histórias que mostram como a ruptura do cotidiano é capaz de expor tanto aspectos da natureza humana quanto da cultura que construímos:

“Nossos valores, escolhas morais, formas de cuidado, relações com os animais, modos de viver em sociedade e maneiras de atribuir sentido ao sofrimento. Mais que registrar uma catástrofe climática, este livro investiga aquilo que ela tornou visível. Porque algumas tragédias não terminam quando a água baixa. Continuam ecoando naquilo que revelam sobre nós”.

Depoimentos

– “Angélica convoca Freud, Jung, Ernest Becker, Pedro Grisa e outros pensadores que ajudam a iluminar questões que emergem das experiências narradas: o luto, o trauma, os apegos, a transitoriedade brusca da vida, a dimensão heroica do humano e as escolhas morais que fazemos diante do caos”, resume o jornalista Rodrigo Lopes, que assina a apresentação de capa.

“Há livros que se escrevem com as mãos. Há livros que se escrevem com o corpo inteiro, com a pele arrepiada de quem foi inundado pelo assunto e voltou para contar. Este é um desses. Não é apenas sobre o que a enchente fez às pessoas, mas sobre o que a enchente revelou que já existia nelas e que a cultura do esquecimento, do imediatismo e do antropocentrismo havia soterrado”, afirma o parapsicólogo Walter Moura.

O jornalista Marcelo Monteiro, que assina a apresentação, é também um dos inúmeros atingidos pela enchente que relatam suas experiências: “O que você está prestes a ler não é “apenas” mais um livro com histórias tristes, enlutadas e enlameadas sobre a enchente de 2024. É um diagnóstico de como uma tragédia pode se refletir nas pessoas e nas sociedades”.

A autora

Angélica Boff é historiadora, mestre em História Cultural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e psicoterapeuta do Método Grisa (Florianópolis/SC). Durante 25 anos atuou com pesquisa histórica, dedicando-se especialmente ao estudo da cultura, do comportamento humano e da construção dos saberes. É também autora de “Expresso 25 – 50 anos: Uma História do Canto Coral no Brasil”.

Moradora de Porto Alegre há mais de quatro décadas, participou como voluntária da enchente de 2024 em diferentes frentes de atuação: abrigos de pessoas e de animais, apoio a equipes de resgate, acolhimento e escuta de vítimas e voluntários, além da mobilização de redes de ajuda. A experiência vivida em campo, somada à escuta de relatos e à sua trajetória como pesquisadora e terapeuta deram origem a este livro.

(Marcello Campos)

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