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Refrigerante e salgadinho desafiam médicos nas aldeias da Amazônia

Foram 95 atendimentos médicos realizados por professores e estudantes da Afya na aldeia Kyikatejê perto de Marabá (PA). (Foto: Maurício Rocha)

O pescador Worlly, da Aldeia Anambé, localizada em Moju, a cerca de 130 quilômetros de Belém (PA), procurou um médico depois que o filho de 4 anos passou a madrugada vomitando. Durante a consulta, relatou o cardápio: açaí, refrigerante, salgadinho… O indígena só se desanuviou quando ouviu que não era nada grave, bastava hidratação e repouso.

A cena, aparentemente corriqueira, ajuda a explicar uma das transformações mais profundas vividas hoje pelos povos indígenas na Região Norte. Durante décadas, os principais desafios dessas populações estiveram ligados a doenças infecciosas, parasitárias, respiratórias e gastrointestinais e à desnutrição. Esses problemas continuam presentes.

“O que a gente mais vê hoje em dia são casos de hipertensão e diabete. E outra doença que está afetando o mundo todo e está chegando na gente são as doenças mentais” Hakakwyi Lima Haraxare Líder do povo Gavião Kyikatêjê, na Terra Indígena Mãe Maria, no sudeste do Pará

Um novo conjunto de enfermidades, no entanto, avança pelas aldeias, de acordo com as lideranças. “O que a gente mais vê hoje em dia são casos de hipertensão e diabete”, afirma Hakakwyi Lima Haraxare, líder do povo Gavião Kyikatêjê, na Terra Indígena Mãe Maria, localizada no sudeste do Pará. “E outra doença que está afetando o mundo todo e está chegando na gente são as doenças mentais.”

O alerta encontra eco em outros diagnósticos. Estudo da Universidade Federal do Pará (UFPA) identificou a ocorrência de doenças metabólicas crônicas – hipertensão, obesidade e diabete tipo 2 – em duas das seis comunidades analisadas. O estudo foi realizado na região do Rio Xingu, em Altamira, e exatamente na Terra Indígena Mãe Maria, no Pará, entre 2007 e 2014. Foram pesquisados 628 indígenas.

O coordenador da pesquisa, o médico e doutor em Ciências Biológicas João Guerreiro, relacionou os males não apenas a predisposições genéticas, mas a mudanças na alimentação e no estilo de vida das comunidades. Entre os fatores está a ingestão de carboidrato e alimentos processados, além daqueles ricos em açúcar e gordura, como refrigerantes e bolachas.

Neste ano, a Secretaria de Saúde Indígena, órgão que integra o Ministério da Saúde, lançou o Guia de Promoção da Alimentação Adequada e Saudável nas Casas de Apoio à Saúde Indígena (Casai), documento que alerta para os riscos do consumo de alimentos ultraprocessados e busca a valorização das práticas alimentares tradicionais.

A distância até o consultório é um obstáculo relevante. Nas aldeias, a presença médica ocorre por meio de escalas periódicas da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). Fora dessas janelas, os pacientes são obrigados a percorrer longas distâncias. Da aldeia Kyikatêjê até Marabá, por exemplo, são 70 quilômetros aproximadamente ou duas horas de ônibus.

Para contornar a dificuldade de acesso a especialistas, professores e estudantes da Afya, grupo voltado à educação e soluções médicas, realizaram consultas gratuitas entre os dias 21 e 23 de maio. Foi nessa missão de saúde que Worlly conseguiu atendimento.

Toda a estrutura médica foi montada nas salas de aula da escola estadual localizada dentro da aldeia Kyikatêjê em uma paisagem que desafia estereótipos sobre os povos indígenas.

A primeira surpresa aparece na chegada à aldeia. Um muro alto e branco delimita a entrada. Há uma guarita povoada por seguranças uniformizados que controlam o acesso – o portão é de correr, com acionamento manual.

Lá dentro, as ruas são de terra batida, o que não intimida os veículos. Caminhonetes de luxo e motos grandes dividem espaço com crianças correndo descalças. Sobre praticamente todos os telhados há antenas de internet via satélite. Não há casas de madeira cobertas por palha. Os adolescentes caminham pelo pátio com celulares nas mãos. Alguns acompanham vídeos nas redes sociais sentados à sombra das árvores centenárias.

Boa parte desses recursos tem uma explicação. Os Kyikatêjês recebem recursos de compensação socioambiental da Vale por causa da passagem da Estrada de Ferro Carajás e de linhas de transmissão operadas pela mineradora. Além disso, eles são reconhecidos historicamente pela gestão autônoma de suas atividades, pela organização e pela luta constante por melhorias.

Um longo corredor com piso de cimento coberto por telhas de cerâmica liga as salas de aula da escola que foram transformadas em consultórios.

As crianças observam aquele desfile de jalecos brancos. Algumas escondem o rosto; outras se aproximam lentamente, mas sempre grudadas na perna da mãe. Não foi necessário distribuir senhas ou enfrentar filas extensas. Havia profissionais suficientes para atender à demanda.

Para ampliar o alcance dos atendimentos, a missão foi programada durante o Festival da Safra da Castanha Nova, celebração que reúne povos indígenas de diferentes regiões do Brasil e promove uma intensa troca cultural.

Pacientes de sete aldeias diferentes – Terena, Gavião, Anambé, Assurini do Trocará, Suruí Aikewara, Xerente, Canela e Apinajé – aproveitaram a oportunidade para resolver demandas que normalmente exigiriam viagens que duram horas. Cerca de mil pessoas circularam pelo território.

Ao longo da ação foram realizados 95 atendimentos, entre consultas de medicina de família, clínica geral, pediatria, dermatologia e ginecologia.

Uma das pacientes que veio de longe foi Lena Bandeira, de 39 anos, do povo Gavião do Maranhão. Ela procurou atendimento após desenvolver uma irritação na pele durante o evento. Foi a primeira vez em sua vida que foi atendida por um dermatologista. “Fui bem recebida, passaram um comprimido e uma pomada. Esse atendimento ajudou porque eu realmente precisava.”

A médica Gabriela Cordeiro confirma a presença de pacientes com hipertensão e diabete. “Os pacientes acabam se alimentando de uma forma diferente, e a gente tenta orientar em relação a isso.”

O calor também exigiu a atenção dos médicos. A vegetação da floresta tropical ajuda a amenizar os 33 graus, mas não elimina o desconforto. Por causa da temperatura, a camisa fica grudada nas costas e nos braços poucos minutos depois de sair do carro. Não há garrafinha d’água que resolva.

Nem a chuva forte que caiu na tarde de quinta-feira aliviou a sensação. Pelo menos trouxe o cheiro de terra molhada que remete à infância de quem cresceu jogando bola em campos de várzea.

“Até os nossos atletas sentiram”, reconhece Reginaldo Xerente, secretário dos Povos Indígenas de Tocantínia, no Tocantins, sobre os efeitos da temperatura. “Alguns tiveram episódios de diarreia e outros precisaram retornar por não terem se adaptado.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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