João (nome fictício) saiu do Brasil para estudar pelo programa Ciência Sem Fronteiras. Pretendia voltar ao País ao fim do curso, mas, em sua estada no exterior, objetivos e crenças mudaram. A experiência de João, a julgar por milhares de supostas fichas de inscrição na milícia terrorista do EI (Estado Islâmico) reveladas por uma TV britânica, está longe de ser única.
Terroristas cobiçam jovens de bom nível educacional, capazes de falar dois idiomas ou mais e de nacionalidades insuspeitas. Com João, o contato veio durante a temporada de estudos na Espanha. Foi sutil, um convite para participar de um grupo de estudos islâmicos.
Com o tempo, ele se converteu. Seus parceiros de crença, disse, ofereciam tudo que ele não tinha na Europa, de atenção a dinheiro. Depois de alguns meses, ele passou a ir a reuniões “mais radicais”, cujas ideias iam além do lado pacífico do Alcorão, livro sagrado do islã. Em uma delas, foi apresentado a dois recrutadores do EI.
O infiltrado.
A cada semana surgem novos casos como este. Não há como explicar por que o terrorismo é atraente a alguém sem histórico de extremismo sem viver a experiência. Por isso, após investigação, um repórter passou a seguir os mesmos passos e tentar mapear o caminho dos recrutados.
Com informações passadas por João, foi necessário criar uma nova identidade, outra história de vida, e ressaltar as aptidões buscadas pelos recrutadores: conhecimento de idiomas, fluência em tecnologia e atração pela filosofia islâmica radical. A idade em torno de 25 anos e a possibilidade de entrar sem maior restrição em vários países é algo que o EI procura em recrutas, dizem analistas.
Com auxílio de João, foi possível chegar a um grupo de estudos que dedicava-se a atividades escusas do ensino do Alcorão. O primeiro encontro com os supostos aliciadores foi marcado em Madri (Espanha). Ao todo, ocorreram encontros com a reportagem em seis países da Europa.
Os aliciadores.
Metódica, a dupla de supostos aliciadores nunca pegava o mesmo tipo de condução e jamais disse onde vivia. Eram dois jovens de aparência comum e sem sinal que remetesse ao radicalismo ou à religião. Além do inglês fluente, um deles falava espanhol e arriscava o português.
Nos primeiros encontros, não houve uma palavra sobre EI. Pareciam medir cada palavra e observavam todos os movimentos e reações à sua volta. Faziam diversas perguntas sobre os relacionamentos no Brasil, a área de estudos e o contato inicial com o islã. Segundo João, era um teste para avaliar riscos e verificar as informações.
Após dias de conversa, eles afirmaram ter nacionalidade inglesa e operarem como recrutadores da milícia, recebendo 10 mil euros ao mês (40 mil reais). Sua missão era “levar os vocacionados a lutar na guerra santa”.
A proposta.
Conforme os encontros avançaram, duas opções foram apresentadas: seguir para a Síria, no território controlado pelo EI, ou assumir uma função no exterior. Em ambas, o recruta seria sustentado pelos terroristas.
A maioria dos recrutados aprovados é encaminhada para treinamento e estudo aprofundado do Alcorão. João explicou que nos treinamentos é intensificada a pregação ideológica e testada a fé dos futuros extremistas.
Para os radicais, estudantes estrangeiros são os mais cobiçados. A tática explora o fato de essas pessoas conhecerem mal a cidade e viverem sós. Os militantes disseram que buscam mais do que combatentes. “Procuramos pessoas que não apenas peguem em armas, queremos influenciadores. Queremos agir como uma bactéria, sem sermos detectados até estarmos em todos os lugares e sermos incontroláveis.”
A mudança na estratégia da facção tenta ampliar sua presença utilizando nativos de cada país. Quem opta por permanecer na Europa é levado a um líder geograficamente próximo para continuar o aprendizado até poder liderar o próprio grupo recrutador. Para isso, também é financiado. (Folhapress)
