A jornalista Maria Júlia Coutinho, a Maju, repórter do tempo do Jornal Nacional da TV Globo, foi alvo de comentários racistas na noite de quinta-feira na página oficial do telejornal no Facebook. Usuários escreveram posts pejorativos sobre a cor da pele da jornalista em uma publicação que continha a foto dela com a previsão do tempo para essa sexta-feira. Um usuário do Twitter postou uma crítica ofensiva à jornalista, que foi rebatida de forma simples e sucinta por ela. “Beijinho no ombro”, respondeu Maju. Mas outros internautas destilaram uma série de ofensas contra ela.
Na noite de sexta, após grande repercussão do fato, Maju foi conclamada pelo âncora William Bonner a comentar. Antes, ele lembrou que “50 criminosos publicaram comentários racistas de maneira coordenada”, mas que “milhares, milhares e milhares de pessoas demonstraram seu apoio” a Maju. “Muita gente imaginou que eu estaria chorando pelos corredores, mas eu já lido com essa questão desde que me entendo por gente. Fico indignada, mas não esmoreço. Cresci em uma família consciente e militante. A militância que eu faço é com meu trabalho. Os preconceituosos ladram, mas a caravana passa”, destacou a moça do tempo durante sua participação no telejornal.
Há uma suspeita de que um grupo ou página racista no Facebook tenha convocado usuários a fazer uma ofensiva contra Maju, visto que os comentários apareceram todos ao mesmo tempo.
Revolta em defesa
Insultos como “Não tenho TV colorida para ficar olhando essa preta não”, “Não bebo café pra não ter intimidade com preto”, “preta imunda” e “preta macaca” geraram uma revolta nacional. Imediatamente após os comentários preconceituosos, milhares de internautas começaram a interceder em favor de Maju. Um “printscreen” com os comentários maldosos foi compartilhado na internet.
Durante a tarde, o âncora e a apresentadora Renata Vasconcellos, juntamente com a equipe do telejornal, fizeram um vídeo em resposta aos comentários preconceituosos e também publicaram na rede. Sem citar a polêmica, Bonner falou: “A gente queria dar um recado para vocês. E o recado é esse aqui, ó: ‘somos todos Maju’”, mostrando um cartaz.
A jornalista e apresentadora Glória Maria, também prestou apoio a Maju. Glória foi a primeira repórter negra a aparecer em rede nacional na emissora carioca e a primeira negra a apresentar o Jornal Nacional e o Fantástico, principais produtos do jornalismo da TV Globo.
“O que eu digo para a Maju é que ela vá em frente e não desista nunca, porque é isso que os racistas querem, que a gente fraqueje e desista. Mas que ela fique mais forte com essa experiência e siga adiante”, disse Glória. Ela lembrou que foi alvo de racismo durante os quase dez anos que apresentou o dominical, de 1998 a 2007. “Eu recebia os comentários por cartas e, depois, por e-mails. Não era uma declaração pública e vinha diretamente a mim, atingia a minha alma e meu coração. Hoje, atinge o Brasil”, lembrou.
Até as 18h10min, o vídeo já tinha 44.498 compartilhamentos. A hashtag “SomosTodosMajuCoutinho” ficou em primeiro lugar nos Trend Topics, a lista dos assuntos mais comentados do Twitter.
Ministério Público
O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, por intermédio da Coordenadoria de Direitos Humanos, solicitou à Promotoria de Investigação Penal que acompanhe o caso junto à DRCI (Delegacia de Repressão a Crimes de Informática) com rigor. A Polícia Civil está investigando para chegar aos autores das falas racistas.
O crime de injúria está previsto no artigo 140 do Código Penal. De acordo com o texto, “se a injúria consiste na utilização de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência”, a pena é de reclusão de um a três anos, além de multa.
Os âncoras do Jornal Nacional, William Bonner e Renata, disseram que a Globo estuda tomar providências.
