Negociadores de petróleo alertaram que a mais recente escalada de tensões no estreito de Hormuz, por onde passa 20% da produção mundial do commodity, ameaça provocar uma nova crise de abastecimento de petróleo bruto, sem os estoques que ajudaram a evitar uma crise econômica mais ampla no início da guerra entre EUA e Irã, que começou em 28 de fevereiro.
O colapso do cessar-fogo entre Washington e Teerã na semana passada fechou novamente em grande parte o estreito, encerrando um breve aumento de embarques pela via navegável.
A campanha de bombardeios dos militares norte-americanos continuou pelo sexto dia consecutivo na quinta-feira (16). Os EUA atingiram o Irã com nove ondas de ataques desde 7 de julho.
A mais recente ameaça às exportações de petróleo do golfo Pérsico surge enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que os ataques do país continuarão ao menos até a próxima semana.
A AIE (Agência Internacional de Energia) disse na última sexta-feira (10) que seus países membros já liberaram quase 300 milhões de barris de petróleo da liberação emergencial planejada de 400 milhões de barris, anunciada em março, o que significa que restam apenas mais algumas semanas antes que esses suprimentos ao mercado se esgotem.
Um negociador ouvido pela reportagem afirmou que acabaram todas as reservas adquiridas pela empresa que representa.
Os preços do petróleo caíram acentuadamente após o primeiro anúncio do cessar-fogo, recuando de cerca de US$ 100 o barril para pouco acima de US$ 70. Mas, em sinal da renovada ansiedade dos traders, o petróleo Brent disparou para US$ 87,55 na terça-feira (14), o nível mais alto em mais de um mês.
Já nessa sexta-feira (17), o petróleo Brent, referência mundial, subiu 4,63%. A alta segue mais uma escalada da guerra no Irã, após uma expansão de ataques para atingir infraestruturas essenciais. Os Estados Unidos atacaram pontes no Irã, e Teerã respondeu atingindo uma usina de energia e dessalinização no Kuwait.
No disputado estreito de Hormuz, onde a renovação do conflito voltou a interromper o fornecimento global de energia, fuzileiros navais americanos abordaram um navio-tanque, e outro navio teria sido atingido por um projétil. O Brent acumulou uma alta semanal de 15,95%, a maior desde a semana do dia 19 de abril.
O WTI (West Texas Intermediate), usado nos EUA, subiu 4,46% nessa sexta, a US$ 82,47. Na semana, a alta foi de 15,93%, a mais alta desde a semana do dia 1º de março, quando iniciou o conflito no Oriente Médio.
Durante o fechamento de quatro meses antes do acordo entre EUA e Irã no mês passado para reabrir o estreito, governos do Ocidente e da Ásia acionaram quase todas as medidas disponíveis para garantir que a crise de abastecimento não prejudicasse a economia mundial.
Potências ocidentais liberaram volumes recordes de reservas estratégicas de petróleo, a China cortou suas importações de petróleo pela metade e fez suas empresas estatais retirarem combustível dos estoques, enquanto a Casa Branca deixou transparecer que os EUA poderiam, pelo menos em teoria, intervir nos mercados futuros se os preços saíssem do controle.
O resultado foi que o petróleo Brent atingiu o pico de US$ 126 o barril em abril, bem abaixo de sua máxima histórica, apesar de a AIE alertar que o mundo estava vivenciando a pior interrupção de abastecimento da história.
Mas traders disseram que, se o novo fechamento do estreito durar meses —com alguns suspeitando que o Irã quer manter a pressão sobre Trump antes das eleições de meio de mandato em novembro—, não está claro desta vez de onde viria o petróleo para compensar o déficit.
Amrita Sen, diretora de inteligência de mercado da Energy Aspects, afirmou que, ao entrar na guerra, o mercado de petróleo tinha aproximadamente 400 milhões de barris de estoques excedentes, sem contar as reservas estratégicas controladas pelos governos.
“Agora não temos quase nada”, declarou Sen. “A complacência do mercado em relação aos fluxos por Hormuz está sendo severamente testada”, avaliou.
Os motoristas, principalmente nos EUA, sentiram o impacto nas bombas de combustível, com os preços da gasolina e do diesel subindo mais rápido —e caindo mais lentamente— do que o petróleo bruto desde o início da guerra.
Trump afirmou na quarta-feira (15) que o preço do petróleo subiu “porque tive que tomar medidas duras porque (o Irã) não obedeceu ao que deveria obedecer… Então tomamos uma pequena atitude”. Mas “quando isso se acalmar, acho que teremos petróleo a US$ 55”, previu Trump, antes de voltar a afirmar que vencerá a guerra “em breve”.
Os mercados de combustíveis refinados estão extremamente apertados, com interrupções adicionais afetando os suprimentos da Rússia, o segundo maior exportador mundial de diesel, após ataques bem-sucedidos de drones ucranianos de longo alcance ao seu sistema de refino. As informações são do jornal Financial Times e da agência de notícias Reuters.
