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Reunião do ex-ministro da Justiça com cúpula da Polícia Federal na Bahia antes do 2º turno tratou de bloqueio em estradas do estado

Anderson Torres tentou reduzir importância do documento que foi decisivo para afastar Bolsonaro das urnas. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Uma viagem de Anderson Torres à Bahia entre o primeiro e o segundo turno das eleições de 2022 colocou o ex-ministro da Justiça de Jair Bolsonaro no foco de uma investigação sigilosa para apurar como foi montada a operação da Polícia Rodoviária Federal que bloqueou as estradas do Nordeste no dia do segundo turno.

Na operação, que gerou um conflito entre o ministro do Supremo Alexandre de Moraes e o diretor da PRF, Silvinei Vasques, foi feito o dobro de abordagens do primeiro turno – um dos motivos para a Polícia Federal colocá-la na mira de uma investigação específica. A PF apura se houve um esforço dirigido para impedir que eleitores de Lula chegassem aos locais de votação.

O inquérito tenta reconstituir a forma como o governo Bolsonaro se preparou para sabotar o adversário petista no segundo turno – e, junto com as apurações sobre a minuta golpista, deve complicar a vida de Anderson Torres, como antecipou o colunista Lauro Jardim.

O episódio é emblemático das descobertas que a PF vem fazendo sobre o que se passou nos dias antes da eleição.

Segundo o que os delegados já apuraram, no final da manhã da quarta-feira 26 de outubro, o ex-ministro da Justiça Torres e seus assessores se reuniram com o superintendente da Polícia Federal na Bahia, Leandro Almada, e seus dois assessores diretos, os delegados Flávio Marcio Albergaria Silva e Marcelo Werner Derschum Filho.

O objetivo era passar pessoalmente uma ordem: que a Polícia Federal se engajasse, com equipes e trabalho de inteligência, na operação que o Ministério da Justiça planejara com a Polícia Rodoviária Federal nos ônibus e veículos que transportariam eleitores no domingo, com vistas a parar todos os que apresentassem qualquer tipo de irregularidade.

Torres tinha passado o final de semana anterior imerso na crise provocada pelo ataque do ex-deputado Roberto Jefferson aos agentes da Polícia Federal que lhe deram voz de prisão, no Rio de Janeiro.

Apesar do cansaço, porém, tinha uma missão a cumprir na Bahia, que ele mesmo classificou a auxiliares como “estratégica”.

Por isso, na noite anterior, desembarcou na base aérea do aeroporto de Salvador num jato da FAB, junto com o diretor-geral da PF, Márcio Nunes, e seu secretário-executivo, o brigadeiro Antonio Lorenzo.

“A função de vocês aqui é tão estratégica que se eu pudesse trocaria de lugar com vocês”, disse ele ao grupo reunido na superintendência da PF, segundo os relatos feitos pelos participantes da reunião à PF e ao Ministério da Justiça.

Torres disse que o ministério estava recebendo muitas denúncias de compras de voto por petistas no Nordeste. Para ele, só isso explicava a grande diferença entre a votação de Lula e a de Bolsonaro no primeiro turno. Na Bahia, Lula tinha tido 5,8 milhões de votos (69,73%), contra 2 milhões (24,31%) do então presidente.

Segundo ele, as informações do setor de inteligência indicavam que os petistas pretendiam causar confusão no dia do segundo turno, e que por isso era preciso engajamento na operação para vistoriar todo mundo.

Por isso, o ministro queria que a Polícia Federal colocasse pelo menos 90% do efetivo nas ruas e estradas no domingo – o que seria atípico para o período.

O tom de Anderson na reunião causou espanto nos policiais. Já havia chegado às superintendências do Nordeste a informação de que o Ministério da Justiça planejava uma operação no dia da eleição – que em tese seria nacional, mas que claramente visava impedir o deslocamento de eleitores nos estados do Nordeste.

Superintendentes da PRF na região, inclusive, não escondiam dos subordinados qual era o objetivo da operação. Vários deles agora estão na mira da PF e do Supremo.

O plano inicial do Ministério da Justiça era inclusive promover uma entrevista coletiva no mesmo dia, após a votação, com a presença das chefias da Polícia Rodoviária Federal e da PF, além de assessores.

A entrevista, porém, não chegou a acontecer, porque a PF da Bahia não se engajou na operação, e a intensa movimentação da PRF nas estradas levou o ministro Alexandre de Moraes a intimar o diretor-geral da corporação a interrompê-la, sob pena de multa e afastamento do cargo.

O esforço da PRF e de Torres não teve o efeito desejado. Os eleitores não deixaram de votar por causa dos bloqueios. Mas Torres e seus ex-subordinados na PRF agora estão sob risco de serem indiciados pela Polícia Federal. A viagem no jato da FAB à Bahia saiu caro para os cofres públicos, mas poderá ficar ainda mais cara para o próprio ex-ministro de Bolsonaro.

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