Porto Alegre tem mais de 250 anos e ainda não sabemos se o Guaíba é rio, lago ou estuário. Mas, ao fim de todas as tardes, o sol se despede em um preguiçoso mergulho, voltando sempre no dia seguinte.
Ainda guri, fui morar em Ipanema. O rio era o pátio da minha casa. Em um barquinho de madeira, com velas de pano, naveguei da Boca da Lagoa dos Patos até a Ilha da Barba Negra. Nunca encontrei índios por ali. Também não existia a Borregaard, hoje CMPC.
Singrei muitas vezes pelo costado da Ilha do Presídio, pelas balsas da Vila Assunção, pelos clubes náuticos e pelo Estaleiro Só, hoje Pontal. Dei a volta no Delta do Jacuí, acampei uma noite por lá e me senti um desbravador. Um pouco adiante, estavam o cadeião, hoje em ruínas, e o Porto de Porto Alegre, ainda pujante. Eram os anos 1970.
Ganhei o mundo, o trabalho e a família nesta Porto Alegre que é a minha casa, às margens do rio que navego e ajudo a cuidar até hoje. Conhecemo-nos bem. É o ciclo da vida que, todos os dias, me mostra o Guaíba e o Delta do Jacuí definhando.
A discussão parece não ter fim. Lembra um Brasil dividido: dois lados, dois proprietários, duas razões. De um lado, os que vejo como piratas, movidos pela ganância, com dragas potentes querendo retirar a valiosa areia do leito do rio, transformando uma riqueza natural em dinheiro. De outro, defensores intransigentes do meio ambiente, da ordem e da lei, que desejam, a qualquer custo, manter a natureza e o homem cada vez mais distantes um do outro.
Sem harmonia, o rio grita.
O poder público estabeleceu regras. Novamente provocado, o Judiciário, amparado na legislação e no arcabouço jurídico, decidiu, nos últimos dias, suspender aquilo que chamo de limpeza do rio. Já nem discuto conceitos. O fato é que não há entendimento.
Conversar é mais do que apenas trocar palavras. É ter disposição para ouvir, admitir que o outro pode ter razão em parte e construir um caminho comum. Não está dando certo.
Vivi e continuo vivendo o meu rio e suas circunstâncias. Sei que nem sempre foi assim. Está na hora de o poder público, a iniciativa privada, o Judiciário, o Ministério Público e os especialistas deixarem de lado o antagonismo e permitirem, de forma regrada, gradual e cautelosa, que o rio seja dragado e limpo, como quem varre uma casa muito suja.
É preciso fazer isso aos poucos: examinando, conferindo, observando, corrigindo aqui e ali, avaliando os impactos e acompanhando as mudanças naturais da flora e da fauna. E que todo o material retirado possa ser aproveitado economicamente, de forma transparente, como devem ser conduzidos os temas relacionados ao bem comum.
Caso contrário, perderemos todos.
Se isso acontecer, restará seguir o caminho do livro de Dee Brown. No meu caso, seria “Enterrem meu coração na curva do rio”. É para onde quero ir.
Eduardo Battaglia Krause
Advogado e escritor
