A combinação perversa de três riscos – fiscal, político e da condução da crise sanitária da pandemia da covid-19 – está por trás do patamar elevado do dólar no Brasil, que não cede apesar da maré favorável para o fortalecimento do real frente à moeda norte-americana.
Na virada do ano, a expectativa de muitos craques do mercado era de que a perspectiva do início do ciclo de alta de juros pelo Banco Central (BC) e o boom de alta de commodities (produtos básicos, como petróleo, grãos e minério de ferro) contribuiria para a valorização da moeda brasileira. Mas esse movimento não aconteceu.
Depois de abrir o dia em alta, o dólar reverteu o movimento e encerrou esta segunda-feira (19) no menor nível em um mês, após o fechamento de um acordo sobre o Orçamento de 2021. O dólar comercial fechou o dia vendido a R$ 5,551, com recuo de R$ 0,034 (-0,61%).
Economistas ouvidos pelo jornal O Estado de S. Paulo apontam que o dólar poderia estar abaixo de R$ 5 se não fosse o “caldo” de incertezas que ronda a economia brasileira em 2021. Na última sexta-feira, a moeda americana fechou em torno de R$ 5,60.
Tem algo diferente no Brasil: sobram dólares e nem assim o valor da moeda americana cai. Isso é novo. O temor desses riscos também deve estar por trás da decisão dos exportadores brasileiros em deixar parte dos dólares obtidos com a venda dos seus produtos fora do País. Estratégia que é legal, mas que tem sido acompanhada com atenção pelos especialistas para entender o seu impacto no comportamento da taxa de câmbio no Brasil.
Estima-se no mercado que os exportadores têm pelo menos US$ 40 bilhões de receitas de exportação que não foram trazidas para o Brasil. Se esse dinheiro tivesse entrado no País, o dólar deveria estar mais baixo. O saldo comercial é grande, mas o saldo de compra e venda de câmbio no mercado é menor.
“Tem muita gente encucada com isso. Eu acho que está associado à incerteza. Melhor deixar lá fora do que trazer para aqui”, avalia o economista e consultor José Roberto Mendonça de Barros, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda. “O fiscal dá uma incerteza gigante”, diz.
Com décadas de experiência em comércio exterior e setor agrícola, Mendonça de Barros diz que é a primeira vez no Brasil que o real não se valoriza num cenário de commodities fortes, de alta do saldo da balança comercial e perspectiva de superávit nas contas externas. Um movimento de valorização do real teria que ter reduzido em pelo menos R$ 0,20 o dólar, colocando a cotação abaixo de R$ 5,50, segundo ele.
O que pesa no clima geral de incertezas não é somente o ruído fiscal, que piorou com o impasse político após a aprovação do Orçamento de 2021 maquiado para acomodar mais emendas parlamentares, mas também a forma como o governo Jair Bolsonaro tem lidado com a pandemia e a vacinação.
Nitidamente a economia brasileira está enfraquecendo, após a perspectiva de recuperação mais forte em 2021, com a má condução do Brasil no enfrentamento do agravamento da doença. O que muitos se perguntam agora é: quando é que vai melhorar a covid-19? Qual é o fluxo de vacinas? Para onde vai a vacinação?
Também houve uma elevação do ruído político porque o governo ficou mais enfraquecido e terá de enfrentar a CPI da covid no Senado e ameaças de o presidente Bolsonaro perder apoio da coalizão do Centrão.
Dois fatores podem dar algum alívio ao câmbio: o aumento da vacinação para um patamar de 1,5 milhão de pessoas por dia e a recuperação econômica no segundo semestre. Mesmo assim, não se espera um recuo do dólar muito maior. A última pesquisa Focus do Banco Central, com uma centena de economistas de instituições financeiras, mostrava o câmbio fechando 2021 em R$ 5,37.
Para o ex-presidente do BC, Gustavo Loyola, é o pessimismo maior em relação ao Brasil que não tem permitido que o real se aprecie, apesar de a cotação estar mais calma nos últimos dias. “Mas é tudo volátil, de acordo com as notícias, porque existe toda essa dúvida agora em relação à sanção do Orçamento e sobre a própria articulação política do governo”, avalia. Ele destaca o efeito do câmbio na inflação, que pressiona os juros.
Loyola diz que o Brasil hoje é um País visto sob o prisma negativo e que “ninguém quer apostar no momento”. Para o ex-presidente do BC, há um sério risco desse quadro de incerteza emendar em 2022, ano de eleições. “Se formos para um cenário mais tranquilo do ponto de vista fiscal, o real poderia ficar em torno de R$ 5,50 ou um pouco menos até. Com a incerteza política, não faço essa aposta”. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo e da Agência Brasil.
