Em um vídeo de pouco mais de 12 minutos postado em sua página pessoal no Facebook, a ex-presidente da Argentina Cristina Kirchner anunciou no dia 18 de maio que seria candidata a vice na disputa contra o presidente Mauricio Macri nas eleições de outubro. Mais do que isso, o cabeça de chapa seria Alberto Fernández, seu antigo chefe de gabinete e uma das vozes críticas à sua administração dentro do movimento peronista. As informações são da BBC News.
Desde que romperam, quando Alberto pediu demissão do cargo em 2008, os dois passaram anos sem se falar.
O pano de fundo para o reencontro, como contam políticos e conselheiros ligados à campanha que colocou a chapa como favorita para vencer as eleições deste domingo, é uma colcha de retalhos: a fragmentação do movimento peronista, uma sucessão de derrotas nas urnas desde 2015, os processos judiciais aos quais responde a família Kirchner e as eleições presidenciais no Brasil, que levaram Jair Bolsonaro ao poder.
“Cristina observou de forma bastante detida as eleições brasileiras, se Lula poderia transferir seus votos a Haddad. E isso não aconteceu”, diz o político Eduardo Valdés, que apresentou Alberto Fernández, seu colega na Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires, ao casal Kirchner em 1997.
Ele conversou com a reportagem da BBC News Brasil em seu escritório em Buenos Aires, uma espécie de bunker peronista com um grande salão ao fundo, as paredes cobertas por memorabilia argentina, estátuas de Eva e Juan Perón, fotos do Papa Francisco, seu amigo pessoal, e um boneco de Lula, que senta no banco do carona em um carrinho pendurado do teto conduzido por Evo Morales.
“A experiência do Brasil foi algo que Cristina analisou para que tomasse a decisão que tomou”, diz outra fonte próxima à campanha.
Isso incluiria a decisão de anunciar a chapa em maio, três meses antes das eleições primárias, marcadas para agosto, “para dar tempo a Alberto para mostrar-se e deixar claro que ele era seu candidato, para que se desse essa transferência de votos”.
A leitura é que o lançamento tardio da candidatura de Haddad, em setembro de 2018, um mês antes de os brasileiros irem às urnas, também havia prejudicado a campanha do Partido dos Trabalhadores (PT).
Outra semelhança entre a disputa na Argentina e no Brasil é o fato de que Cristina, assim como Lula, tem um “núcleo duro” de votos — algo entre 25% e 30%, no caso da ex-presidente —, mas também enfrenta uma rejeição alta entre parte dos eleitores.
“Ela tinha plena consciência de que, se fosse candidata, não iria ganhar. Teria que colocar alguém que conseguisse somar votos fora desse núcleo duro”, acrescenta essa mesma fonte.
Como Lula, Cristina responde a uma série de processos na Justiça, assim como os dois filhos, Máximo e Florencia Kirchner.
A caçula, de 29 anos, está em Cuba fazendo um tratamento para um problema de saúde. A candidata viajou algumas vezes à ilha durante a campanha para visitá-la, com autorização judicial, e recentemente chegou a se emocionar ao falar da filha durante um evento para o lançamento de sua autobiografia.
Assim, a chance de que ela e os filhos pudessem eventualmente ser presos, uma possibilidade que poderia crescer com a reeleição de Macri, também é apontada como um incentivo para que Cristina, vista como uma pessoa que provocava desunião por uma parcela do Partido Justicialista (PJ), ao qual é filiada, trabalhasse pela reunificação do peronismo.
Alberto, por sua vez, além de ser de sua confiança — apesar do afastamento —, era visto como alguém com capacidade para dialogar com diversos setores, além de ser um “peronista técnico”, diz a cientista política María Esperanza Casullo, ainda não exposto ao desgaste da vida política fora dos bastidores.
A ideia de concorrer como vice, segundo Valdés, veio dela.
