Outras três testemunhas foram ouvidas pelo Tribunal do Júri da boate Kiss, em Porto Alegre, neste domingo (5). Este foi o quinto dia de julgamento dos quatro réus no processo sobre o incêndio que matou 242 pessoas na boate Kiss, em Santa Maria, em janeiro de 2013.
O primeiro a depor foi Tiago Flores Mutti, engenheiro civil de 46 anos, que era sócio de uma empresa que originou a casa noturna. Seu testemunho foi arrolado pela defesa do réu Mauro Londero Hoffmann. Posteriormente, foram ouvidos o sobrevivente Delvani Brondani Rosso, que estava na festa, e Doralina Peres, que trabalhava como segurança terceirizada na boate.
São réus pelas mortes os sócios da boate Kiss Elissandro Callegaro “Kiko” Spohr, 38 anos, e Mauro Londero Hoffmann, 56, além do músico Marcelo de Jesus dos Santos, 41, vocalista da banda Gurizada Fandangueira, e do produtor e auxiliar de palco Luciano Bonilha Leão, 44.
Desde quarta-feira (1°) está sendo realizado o júri do caso Kiss. Os quatro réus respondem pela acusação de homicídio simples (242 vezes consumado, pelo número de mortes; e 636 tentados, pelo número de feridos).
Pelo plenário do 2º andar do Foro Central I, em Porto Alegre, já passaram 16 depoentes, das quais 10 vítimas, 4 testemunhas e 2 informantes). Restam ainda 13 depoimentos (2 vítimas e 11 testemunhas), totalizando 29 oitivas.
O Tribunal do Júri é formado pelo Juiz Presidente, Orlando Faccini Neto, e pelo Conselho de Sentença (formado por sete jurados).
Em depoimento que durou 5 horas, Tiago Mutti informou que auxiliou nas obras da reforma na Boate Kiss, em 2009, quando a irmã dele, Cíntia, era a proprietária do estabelecimento em sociedade com outros dois empresários. Segundo ele, a família desejava investir no ramo para concorrer com a Boate Absinto que, até então, era a maior casa noturna da cidade. O prédio escolhido para instalar a boate sediava um curso pré-vestibular. A estimativa dele é que a reforma, que durou em torno de 5 meses, tenha custado em torno de R$ 250 mil.
Foi constituída uma sociedade, contratados profissionais para realizar os projetos arquitetônico e de PPCI, mas, segundo ele, houve morosidade no fornecimento do alvará. “Em 2009, a boate inaugurou e foi um fracasso. Meu pai assumiu no lugar da minha irmã, que foi fazer Mestrado”. Em seguida, o pai de Tiago desistiu do negócio por se desentender com um dos sócios. Tiago disse que ficou com a missão de vender a parte da irmã dele no negócio. Foi aí que Elissandro Callegaro Spohr (Kiko), que tinha uma banda, comprou a parte da família na Kiss. O pagamento foi um veículo New Beatle ano 2005 e mais R$ 10 mil. A condição foi que o pagamento seria efetuado quando saísse o alvará da prefeitura, o que ocorreu em maio de 2010.
Tiago disse que a família deixou a administração da Kiss em dezembro de 2009 e que, até aquele momento, não havia espuma instalada no local. Kiko e Alexandre (que já era sócio) assumiram juntos a partir dali. “Eu prestava informações esporádicas acerca de questões da boate”. Afirmou que, durante 3 anos, não soube mais o que ocorria na danceteria, mas que conversava por telefone com Kiko de vez em quando.
Delvani Brondani Rosso, 29 anos, foi salvo pelo irmão, Jovani, que retirou ele e outras pessoas que estavam no interior da Boate Kiss, durante o incêndio de 27/01/13. Com um relato bastante emocionado, o jovem mostrou aos jurados as marcas que ainda carrega no corpo após aquela noite, especialmente nos braços e nas costas. “Enquanto fui caindo, fui me despedindo da minha família, dos meus amigos, pedindo desculpas por alguma coisa que eu tivesse feito. Senti meu corpo queimar, fui caindo e desmaiei”. Ele perdeu 3 amigos, Henrique, Cássio e Jacob.
O irmão dele viu o princípio do incêndio e conseguiu sair a tempo. Foi ele quem resgatou Delvani. “Minha pele colou na camisa e puxaram com uma pinça. Desmaiei e fiquei 1 mês em coma”, disse. Foram mais de 2 meses internado. O jovem emagreceu 20 kg, teve que reaprender a fazer coisas básicas, como caminhar e se alimentar.
Arrolada pela defesa de Elissandro Callegaro Spohr, Doralina Peres prestou o último depoimento deste domingo. Doralina era funcionária terceirizada, contratada pela empresa de Everton Drusião, seu chefe direto. Ela informou que a Kiss estava cheia no dia do incêndio, mas não lotada. Disse que foi retirada do local por um colega. Doralina ficou quase 1 mês internada no hospital, teve problema pulmonar e fez enxerto na perna. Cinco colegas dela faleceram em decorrência dos ferimentos.
Questionada sobre se existia ordem de barrar as pessoas para não saírem da casa sem pagar, Doralina explicou que “Kiko ficava com a identidade delas até que elas voltassem ou pedissem ajuda para os familiares”.
Sobre treinamento de segurança, Doralina disse que recebeu dos próprios colegas mais antigos. Ela não sabia manusear extintores de incêndio e não se recorda de nenhuma reunião com a chefia que tenha tratado desse assunto.
O júri será retomado nesta segunda-feira (6), a partir das 9h. Todos os depoentes são indicação da defesa de Elissandro Callegaro Spohr: Stenio Rodrigues Fernandes (testemunha), Willian Renato Machado (vítima) e Nathalia Daronch (vítima).
