Enquanto a maior parte das pessoas dorme, cientistas no Sul de Minas acompanham fenômenos que aconteceram há milhares, milhões ou até bilhões de anos. No alto da Serra da Mantiqueira, entre Brazópolis (MG) e Piranguçu (MG), telescópios captam sinais vindos do espaço profundo e ajudam pesquisadores brasileiros a compreender a formação e a evolução do Universo.
É nesse cenário que funciona o Observatório do Pico dos Dias (OPD), o maior complexo astronômico em operação no Brasil. Instalado a 1.864 metros de altitude, o observatório acompanha estrelas, galáxias, exoplanetas, asteroides, cometas e até fragmentos de satélites desativados, conhecidos como lixo espacial.
Ao longo de mais de quatro décadas, a estrutura participou de pesquisas que ampliaram o conhecimento sobre pequenos corpos do Sistema Solar, incluindo estudos relacionados aos anéis de Chariklo e a confirmação dos anéis de Quíron, objeto localizado entre as órbitas de Saturno e Urano.
O acesso ao observatório parte do bairro Bom Sucesso, em Brazópolis, e leva cerca de 25 a 35 minutos de carro por uma estrada de montanha até o topo da Serra da Mantiqueira.
No inverno, principalmente durante as madrugadas, o frio é um dos desafios da operação. As temperaturas podem ficar próximas de 2°C, com sensação térmica chegando a -1°C.
A altitude é justamente uma das principais razões para a escolha do local. Com menos interferência da atmosfera, poeira, umidade e poluição luminosa, os telescópios conseguem captar sinais mais precisos vindos do espaço.
“Estar no alto da montanha significa que os nossos telescópios ficam acima de grande parte das camadas de poeira, poluição e do ar mais denso. A altitude entrega um céu mais limpo e estável, fundamental para captar imagens profundas do Universo”, explica Carlos Eduardo Lisboa da Silva, técnico em instrumentação.
Além das condições naturais, a localização também foi estratégica pela proximidade com importantes centros de pesquisa, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Itajubá.
Quem imagina um astrônomo observando o céu pela lente do telescópio como aparece nos filmes costuma se surpreender ao conhecer a rotina do observatório.
Hoje, a maior parte do trabalho acontece com equipamentos científicos e computadores que transformam a luz captada em dados.
“Muita gente imagina que o astrônomo passa a noite olhando diretamente pelo telescópio. Hoje, a maior parte do trabalho acontece diante de computadores e instrumentos científicos. O telescópio coleta a luz dos objetos celestes e nós transformamos essas informações em dados que ajudam a compreender o Universo”, explica Luciano Fraga, diretor substituto do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), unidade vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), responsável pela operação do observatório.
O principal equipamento do complexo é o telescópio Perkin-Elmer, com espelho de 1,6 metro de diâmetro, considerado o maior telescópio óptico em operação no Brasil.
O observatório também abriga os telescópios Boller & Chivens, Zeiss e ROBO43. O Zeiss carrega uma curiosidade histórica: comprado da antiga Alemanha Oriental na década de 1970, teve parte do pagamento feita com café brasileiro.
“Ele não foi comprado com dinheiro. O Brasil pagou usando café. É uma história que mostra como a astronomia brasileira precisou encontrar caminhos criativos para construir sua infraestrutura científica”, conta Carlos.
Antes do anoitecer, pesquisadores e técnicos iniciam a preparação dos equipamentos. São feitas calibrações, verificações das condições meteorológicas e ajustes para que os telescópios possam funcionar durante a madrugada.
Foi em uma dessas noites que a astrônoma Bárbara Luiza de Miranda Marques decidiu seguir carreira.
“Minha primeira experiência no Observatório do Pico dos Dias foi acompanhando uma colega em um projeto de observação de galáxias. Fazia bastante frio, mas ver a Via Láctea atravessando o céu foi inesquecível. Depois daquela experiência, tive certeza de que havia escolhido a profissão certa.”
Hoje, pesquisadora do LNA, ela explica que a observação é apenas uma etapa do trabalho.
“Há muito trabalho antes e depois da noite de observação. Existe a elaboração dos projetos, a disputa por tempo de telescópio, a coleta dos dados e depois toda a etapa de tratamento e análise dessas informações.”
A cada semestre, entre 20 e 25 projetos científicos utilizam os equipamentos do observatório. As pesquisas reúnem equipes de universidades e institutos brasileiros, além de colaboradores internacionais.
Os telescópios do Pico dos Dias são usados para estudar diferentes objetos do Universo: estrelas, galáxias distantes, asteroides, cometas e exoplanetas — planetas que orbitam outras estrelas além do Sol.
Muitas descobertas surgem a partir de pequenas alterações na luz captada pelos instrumentos.
“A maioria das pessoas imagina que apontamos o telescópio e vemos o planeta redondinho na imagem. Mas eles estão tão longe e são tão ofuscados pelo brilho das estrelas que usamos truques de luz para encontrá-los”, explica Carlos.
