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Saiba como Nova York está mudando os restaurantes ao ar livre para se adaptar ao “novo normal”

Entre a segurança e o faturamento: donos de restaurantes começam a lutar contra nova onda de covid em Nova York. (Foto: Reprodução)

Em setembro do ano passado, um par de cabines surgiu no West Village em frente ao restaurante ítalo-americano Don Angie. Seu piso era do mesmo linóleo xadrez usado no chão da sala interna. Cada uma tinha três paredes com grandes janelas, cujos cantos arredondados reproduziam as da fachada do restaurante. Através delas, podiam ser vistas mesas privadas separadas por divisórias transparentes do chão ao teto.

Naquela época, o programa Restaurantes Abertos, que rapidamente autorizava milhares de restaurantes a montar mesas na rua e na calçada, tinha alguns meses de idade. Os nova-iorquinos já haviam se acostumado com uma primeira onda de áreas de jantar na rua delimitadas por cones de trânsito, jardineiras e outros itens de loja de ferragens. As cabines do Don Angie eram diferentes. Elas foram precursoras da segunda onda – projetadas com premeditação e construídas para durar além do verão. O mais interessante de tudo foi que o restaurante estava consciente de sua responsabilidade de dar aos passeadores de cães e ciclistas do bairro um momento de alegria visual em troca do privilégio de ocupar terras públicas.

Agora, uma terceira onda de arquitetura gastronômica de calçada está a caminho, e é hora de os nova-iorquinos pensarem no que querem dos restaurantes em troca de deixá-los operar nas ruas.

A prefeitura está trabalhando no complicado processo de tornar permanente o programa Restaurantes Abertos e um programa irmão chamado Ruas Abertas, que transforma temporariamente trechos de vias em zonas livres de carros. Os estabelecimentos ainda têm de seguir as regulamentações determinadas pelo Departamento de Saúde, pelo Departamento de Edificações e por outras agências, mas as novas regras do Departamento de Transporte estabelecerão padrões para o jantar ao ar livre. À medida que a crise da covid-19 e a ameaça que ela representou para um pilar da economia da cidade se tornam menos urgentes, a cidade tem uma nova lógica para permitir que mesas e cadeiras ocupem mais de oito mil vagas para estacionar o carro.

“Temos a oportunidade de fazer uma mudança permanente e positiva na qualidade de vida da cidade de Nova York. O programa pode ter começado como uma medida de emergência para salvar restaurantes, mas o que descobrimos no processo é que os nova-iorquinos gostam de jantar ao ar livre”, disse Henry Gutman, comissário do Departamento de Transportes, que supervisiona o Restaurantes Abertos e outras iniciativas que transformaram as vagas de carros nas ruas em algo que a cidade acredita que vai beneficiar mais pessoas.

Tornar a cidade um lugar mais agradável para viver e visitar e, ao mesmo tempo, proteger os comensais do trânsito é, de certa forma, uma tarefa burocrática mais simples do que combater um vírus aéreo ou evitar a ruína financeira das empresas locais. Mas regulamentos bem planejados podem garantir que a criatividade exuberante do ano passado continue; normas excessivamente rigorosas podem impor uma mesmice sem graça.

Taxas baixas e formulários simples podem ajudar os restaurantes que oferecem refeições ao ar livre a criar raízes em áreas onde as pessoas têm menos dinheiro e menos experiência em lidar com a burocracia. Esses espaços podem ser restritos à alimentação e à bebida, ou podem ser abertos a atividades culturais, educacionais ou comunitárias. Os proprietários de empresas poderiam usar ruas e calçadas para receber seus vizinhos ou para se isolar deles.

Para incentivar os tipos de projeto e de colaboração que tornarão a cidade um lugar mais interessante para viver e visitar, três grupos sem fins lucrativos que defendem o melhor uso das ruas e de outros espaços públicos estão realizando um novo concurso, o Alfresco Awards.

“Queremos promover os projetos bons e bonitos e as parcerias comunitárias, as que realmente se encaixam com segurança e mobilidade nas ruas”, declarou uma das organizadoras da premiação, Kate Slevin, vice-presidente executiva da Associação de Planos Regionais, sem fins lucrativos.

Muitos projetos são lúdicos. Alguns transformam a cidade em uma floresta tropical frondosa ou em um oásis no deserto. Outros, como o mural que um grupo de voluntários chamado Neighborhood Curbside Canvas Project organizou para o restaurante Square Diner em TriBeCa, transformam quilômetros de muros e barreiras recém-construídos ao redor da cidade em instalações artísticas.

Há os que têm uma mensagem. O Peaches Kitchen & Bar, restaurante sulista em Bedford-Stuyvesant, no Brooklyn, participa com suas “Cabanas da Amizade”, cujas paredes são feitas de milhares de garrafas de plástico transparente entrelaçadas. Cada garrafa tem menos de 12 centímetros, mas as paredes que formam são fortes o suficiente para resistir a ventos de até 168 km/h. Durante o dia, elas deixam o sol entrar, e à noite refratam a luz de faróis e lanternas traseiras dos carros que passam, transformando-as em padrões caleidoscópicos de vermelho e branco.

Além de acomodar seis pessoas cada, as cabines do Peaches são propagandas de uma ideia, segundo Josh Draper, que as projetou como uma extensão de seu trabalho como pesquisador no Centro de Arquitetura, Ciência e Ecologia do Instituto Politécnico Rensselaer.

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