Não estranhe se uma perna cabeluda atravessar o tapete vermelho do Oscar no próximo domingo. A lenda urbana recifense materializada no filme “O Agente Secreto” saltou das telas e se tornou um elemento de divulgação do filme, presente até na festa comemorativa depois da exibição no Festival de Cannes, em maio do ano passado.
A história da perna sem corpo que atacava pessoas em Recife nos anos 70 se tornou uma válvula de escape e resistência à opressão da ditadura, frequentando o imaginário popular, as páginas de jornal e assustando crianças da época, como o diretor Kleber Mendonça Filho. O trauma se converteu em um dos melhores momentos do mosaico multifacetado, bem-humorado e também soturno do Brasil da ditadura civil-militar elaborado em “O Agente Secreto”.
Dando continuidade à boa onda que tem feito o cinema brasileiro navegar pelo mundo, “O Agente Secreto” concorre em quatro categorias do Oscar, o prêmio mais cobiçado do cinema, que será entregue neste domingo (15): melhor filme, filme internacional, ator (Wagner Moura) e direção de elenco (Gabriel Domingues).
Assim, iguala o recorde de “Cidade de Deus”, outro brasileiro quadruplamente indicado, em 2004, e pega o bastão de “Ainda Estou Aqui”, que, no ano passado, recebeu três indicações e trouxe a primeira estatueta para o Brasil (de melhor filme internacional).
Mas há uma diferença. “O Agente Secreto” é o primeiro filme brasileiro que chega ao Oscar produzido fora do eixo Rio-São Paulo (pela produtora Cinemascópio, de Kleber e Emilie Lesclaux, sediada no Recife). É também uma produção lançada nas salas brasileiras por uma distribuidora independente, a Vitrine. Esses feitos ganham significado especial em um momento de fortes disputas em torno da diversificação das políticas públicas, descentralização dos investimentos e apoio à distribuição independente e a outros segmentos da cadeia audiovisual.
“O Agente Secreto” no Oscar confirma a importância da possibilidade do risco em uma indústria criativa. Confirma também a força do cinema feito no Nordeste, especialmente o pernambucano, que desde meados dos anos 2000 tem se provado um dos mais férteis e desafiadores da produção brasileira. Consagra, ainda, a carreira do diretor Kleber Mendonça Filho e da produtora Emilie Lesclaux, parceiros de vida e sócios na Cinemascópio.
“Mais importante do que ter uma produção fora do eixo Rio-São Paulo fazendo sucesso fora do Brasil é que essas produções sejam vistas no próprio país. Os filmes brasileiros, em sua diversidade, constroem nossa identidade, que vai muito além dos sotaques das novelas”, diz Wagner Moura, que pelo seu trabalho em “O Agente Secreto” já ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes e o Globo de Ouro de melhor ator em drama. “E o cinema nordestino, notadamente o pernambucano, tem sido a vanguarda do cinema brasileiro já há muito tempo.”
O sucesso de bilheteria no Brasil, por sua vez, consolida o trabalho de formiguinha feito pela distribuidora Vitrine, que desde sua fundação, em 2010, vem apostando em filmes considerados pequenos pelo mercado. “O Agente Secreto” é o primeiro blockbuster da companhia, com mais de 2,5 milhões de ingressos vendidos e uma receita bruta que passa de R$ 50 milhões. O filme já superou a marca do “break even”, ou seja, recuperou os gastos de lançamento.
Os resultados de “O Agente Secreto” não são um fenômeno isolado, mas fruto de um trabalho contínuo. “A parceria com a Vitrine e, neste ano, com a Neon, nos EUA, são relações de trabalho que se misturam com afeto, respeito e amizade. O que me estimula muito. Não conseguiria trabalhar com pessoas com quem eu estivesse sempre batendo de frente, tendo que consertar erros”, diz Kleber Mendonça Filho.
“Somos empresas irmãs”, completa Silvia Cruz, sócia-diretora da Vitrine, referindo-se à Cinemascópio. “Temos mais ou menos a mesma idade e trabalhamos juntos desde o documentário ‘Crítico’, o primeiro longa de Kleber. Estamos na sexta colaboração, é uma trajetória de 15 anos.”
“A Vitrine lançou ‘Crítico’, que, se não me engano, vendeu pouco mais de 800 ingressos”, lembra Kleber. “Mas nunca reclamei disso. Apesar de amar esse filme, entendi que era esse seu tamanho. Ao mesmo tempo, ele ganha peso com o passar do tempo e desperta interesse até hoje. Foi também um filme muito importante pessoalmente, porque selou um momento de transição da crítica para o fazer filmes.”
Enquanto realizava curtas, Kleber foi também programador de salas e crítico de cinema, colaborando para vários veículos. Ele cobriu o Festival de Cannes durante vários anos para o Jornal do Commercio, de Recife.
Apesar de ter recebido prêmios no Festival de Roterda, na Holanda, o longa seguinte de Kleber, “O Som ao Redor”, foi recusado por duas distribuidoras brasileiras que trabalham com “filmes de arte” – termo que Kleber detesta. “O mercado tem mania de criar escaninhos, mas eu nunca, até onde sei, fiz um filme de arte. Não é esse meu objetivo”, diz. Com as recusas, “O Som ao Redor” foi para as mãos da Vitrine e se tornou também um título importante para a distribuidora. (Com informações do Valor Econômico)
