O Brasil vai assumir a presidência do G-20 pela primeira vez na história neste fim de semana, na cúpula de Nova Délhi, na Índia, no momento em que o bloco vive sua maior divisão interna, provocada pela guerra na Ucrânia e pelas disputas econômicas e geopolíticas entre China e Estados Unidos.
Esvaziado, o encontro ocorrerá sem a presença do presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o da China, Xi Jinping. Especialistas acreditam que falta de efetividade do G-20 na arena global deve render poucos benefícios práticos à diplomacia brasileira.
Analistas consultados pelo jornal O Estado de S. Paulo acreditam que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva usará a participação na cúpula de Nova Délhi para impulsionar a mesma agenda internacional pregada nos últimos meses e que tem atraído críticas dentro e fora do Brasil.
Essa política é marcada por um não alinhamento à guerra na Ucrânia, por vezes entendido como um apoio tácito à Rússia, e o questionamento do dólar como base do comércio internacional, em um aceno ao protagonismo chinês.
Para o professor de relações internacionais da ESPM-SP, Gunther Rudzit, o presidente deve apostar num discurso similar ao da cúpula dos Brics, quando se alinhou a russos e chineses. “Lula deve falar sobre o sistema financeiro e de outras moedas, a mesma agenda que vem discutindo desde o início de seu governo”, diz.
A agenda ambiental, cara às potências ocidentais, é o principal ponto de contato hoje entre a diplomacia brasileira e americanos e europeus. Caso Lula pretenda reconstruir pontes e se equilibrar entre os dois polos antagônicos do G-20, deveria optar por reforçá-la, na visão de Rudzit.
“O governo brasileiro sabe que dar atenção para os temas ambientais agrada aos Estados Unidos e aos europeus”, explica.
O comando do G-20 chega às mãos brasileiras num momento em que o bloco está marcado por divisões entre um bloco ocidental, composto por americanos e europeus, e um emergente, com russos e chineses. Importante na reação à crise de 2008, o bloco hoje perdeu relevância diante das tensões crescentes provocadas, de um lado pela guerra na Ucrânia, e de outro pela ascensão da China.
Ainda de acordo com analistas, essa perda de protagonismo do fórum deve tornar inócua a tentativa de Lula se cacifar como líder global — algo que ele tem buscado, sem sucesso, com suas declarações sobre Ucrânia e a governança global.
“Lula vai buscar mostrar que é uma liderança global, mas o G-20 não tem sido muito efetivo, então não acredito em nada muito concreto que o Brasil possa fazer”, completa Rudzit.
Richard Rossow, consultor sênior e diretor do departamento de Índia do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, uma think-tank com sede em Washington, também alerta que, mais do que a guerra ou o dólar, a agenda ambiental é o principal tema sobre o qual o Brasil pode tentar exercer protagonismo neste momento.
“O combate ao desmatamento, que é um problema que o Brasil enfrenta, pode e deve ser levado para o G-20″, avalia Rossow.
A cúpula em Nova Délhi vai refletir justamente as divergências na arena global. A reunião de chefes de Estado e de governo ocorre semanas depois da expansão do Brics, de 5 para 11 membros, impulsionada pela China. Dois dos novos integrantes são membros do G-20 – Argentina e Arábia Saudita e países conhecidos por uma agenda antiocidental, como o Irã.
Pequim desenvolve uma estratégia de fortalecer sua posição global desafiadora da dominância dos Estados Unidos, como reação à maior coesão política do G-7, liderado pelas potências ocidentais.
Além de ampliar o Brics, essa ofensiva chinesa inclui questionamentos ao uso dólar, como moeda padrão em transações internacionais, o que vem sendo vocalizado também por Lula.
Assim como ocorreu na Cúpula do Brics, no fim de agosto, Putin decidiu não comparecer pessoalmente. Embora não houvesse restrição de ordem legal, como a ordem de prisão que ameaçava sua estada em Johannesburgo, Putin certamente ouviria em solo indiano questionamentos de ordem política sobre a guerra na Ucrânia.
“A política de confronto adotada pelo Ocidente coletivo tem criado obstáculos artificiais que impedem o G-20 de libertar o seu potencial criativo. Os esforços dos Estados Unidos e dos seus aliados para difundir informação anti-Rússia e anti-China, principalmente no contexto da Ucrânia, têm sido uma fonte especial de tensão”, disse a porta-voz da chancelaria russa, Maria Zakharova.
A diplomacia brasileira reconhece que diante da rivalidade entre ocidentais e emergentes, a cúpula deve terminar em um impasse sobre a guerra na Ucrânia, assim como ocorreu em 2022, em Bali, na Indonésia.
“Como o G-20 hoje é o principal foro em que as grandes potências estão reunidas e sentadas em torno de uma mesma mesa, naturalmente, o tema da Ucrânia não é ignorado. Tende a ser um dos pontos mais complexos, difíceis, na negociação para se chegar a um texto de consenso. De fato, porque ser um conflito de efeitos globais, sobre a economia internacional, acaba sendo um tema importante para o G-20. Não que desvie a atenção de outros temas, mas tende a concentrar um pouco parte das atenções”, disse o embaixador Mauricio Lyrio, secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Itamaraty e negociador-chefe do Brasil no G-20.
Em discurso no domingo, dia 10, o presidente Lula deverá anunciar os temas-chave que guiarão os trabalhos coordenados pelo Brasil ao longo do ano que vem. O petista quer apresentar uma agenda social ao bloco. Três assuntos são prioritários para o governo: combate a desigualdades em geral, especialmente fome e pobreza, mudanças climáticas e reforma dos órgãos de governança global. Lula faz uma campanha para que países em desenvolvimento ganhem mais peso e representação. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
