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Saiba por que você não sente a redução da taxa básica de juros no seu bolso

Modalidade é conhecida pelos altos juros, que chegaram a 437% ao ano. (Foto: Agência Brasil)

O atual ciclo de queda da Selic (taxa básica de juros), que foi reduzida pela oitava vez seguida na quarta-feira (17), começou em julho de 2019. De lá para cá, a taxa caiu de 6,5% para os atuais 2,25% ao ano, menor nível da história. Os juros dos empréstimos pessoais, porém, caíram em velocidade menor e algumas linhas seguem com taxas exorbitantes, acima de 313% ao ano, como é o caso do rotativo do cartão de crédito.

Desde julho de 2019 até abril (dado mais recente do Banco Central sobre taxas médias de juros), a Selic caiu quase 54%, enquanto o rotativo subiu mais de 4%. Mas o que explica esse descompasso?

Em poucas linhas, o Brasil tem as condições de temperatura e pressão ideais para que os empréstimos sejam caros: uma combinação entre concentração bancária e os maiores custos de inadimplência e cargas tributárias do mundo.

Mas a questão não é tão simples quanto parece e o oligopólio do setor financeiro, a despeito do senso comum, não é o único vilão.

O que é

A Selic é a taxa básica de juros da economia. O “básica” é justamente porque a Selic é o juro mínimo aplicado para que o dinheiro não perca da inflação em um dado período. É a taxa usada nas operações de menor risco da economia, daí seu codinome: “taxa livre de risco”.

Pense o seguinte, se a economia é formada por empresas, pessoas e governo, quem tem o menor risco de calote? O governo, que no limite pode até “criar” moeda. Seguindo a lógica do risco, portanto, se você fosse emprestar dinheiro a cada um deles, o governo teria a menor taxa; a empresa, que normalmente tem mais dinheiro que uma pessoa, teria juros intermediários; e a pessoa, que tem maior chance de dar calote teria os juros mais altos.

Spread e os custos do empréstimo

A taxa Selic é apenas o ponto de partida para a formação do custo de um empréstimo. Basicamente, um banco lucra ao pegar dinheiro de investidores numa ponta e emprestar na outra, pagando juros menores aos investidores e cobrando juros maiores dos tomadores. A diferença entre as taxas de captação e empréstimo é o chamado spread.

Mas do spread o banco ainda tira vários custos para chegar no lucro. “O spread do banco no Brasil é alto, um dos maiores do mundo, mas entre a Selic e a taxa final para o consumidor existem vários custos e o de inadimplência é um dos mais relevantes”, explica o professor de finanças do Insper, Michael Viriato.

Selic cai, empréstimos caem menos

Entre julho de 2019, quando começou o atual ciclo de queda da Selic, e abril deste ano (último levantamento de taxas do Banco Central), os juros básicos da economia caíram quase 54%; o empréstimo pessoal caiu apenas 9,33%; e os juros do rotativo do cartão (cobrados quando a fatura não é 100% paga) chegaram a subir mais de 4%. A taxa do cheque especial (cobrada quando a conta entra no negativo) foi a única que caiu mais, mas por causa da nova regra que limitou os juros a 8% ao mês.

No entanto, no mesmo período, a taxa de inadimplência média das linhas de crédito aumentou 12,5%. “Ainda que a captação tenha ficado mais barata para o banco, com a redução da Selic, o custo com inadimplência subiu, diminuindo o spread”, comenta o professor do Insper.

Competição baixa, preços altos

Os cinco grandes bancos, Banco do Brasil, Bradesco, Caixa, Itaú e Santander, concentram 62% da carteira de crédito do país, segundo a Accenture (excluindo crédito imobiliário e rural).

“Um restaurante que está com uma ótima demanda não vai reduzir sua rentabilidade no sentido de favorecer a todos. Então como reduzir o custo do hambúrguer? Estimulando a competição”, diz Viriato.

Murilo Viana afirma que, apesar de os bancos terem sua dose de razão ao dizer que a inadimplência e tributação justificam o spread elevado, por outro a maior explicação para os juros altos no país é a concentração bancária.

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