Depois de meses renovando recordes históricos, a bolsa de valores brasileira mudou de direção. Nesta terça-feira (18), o Ibovespa, principal índice da B3, chegou à 11ª sessão consecutiva de queda, registrando a maior sequência de perdas desde 2023.
Nesta quarta, o índice conseguiu encerrar a fase ruim e fechou em alta de 0,90%. Se tivesse caído nesta sessão e na próxima, igualaria o recorde histórico de recuos.
Em 2026, o desempenho acumulado ainda é positivo: o Ibovespa sobe 4,16%. No entanto, o mês de agosto praticamente eliminou os ganhos acumulados no ano. A perda no mês é de 5,71%, o que coloca a bolsa brasileira como a segunda pior entre os 21 principais mercados acionários acompanhados pela consultoria Elos Ayta.
A combinação entre a saída recorde de investidores estrangeiros, as dúvidas sobre o ritmo de queda dos juros, as incertezas fiscais e eleitorais, e o agravamento do cenário geopolítico levou muitos investidores a reduzir suas apostas no Brasil.
Entenda abaixo como esse movimento afeta o Ibovespa.
Estrangeiros retiram bilhões da bolsa
O principal gatilho para essa sequência de perdas foi a retirada de recursos por investidores estrangeiros. Até 13 de agosto, investidores estrangeiros retiraram R$ 15,63 bilhões da bolsa brasileira. É a maior saída mensal desde 2022.
O recorde anterior havia sido registrado apenas três meses antes, em maio, quando o fluxo negativo somou R$ 13,28 bilhões. Com isso, 2026 já concentra as duas maiores retiradas mensais de capital estrangeiro da série histórica.
O movimento contrasta com o observado no início do ano. Entre janeiro e fevereiro, investidores estrangeiros aplicaram R$ 42,56 bilhões na bolsa brasileira, um dos maiores volumes registrados na última década.
Esse fluxo ajudou o Ibovespa a renovar sucessivos recordes e a superar, pela primeira vez, os 190 mil pontos. Naquele momento, o Brasil reunia uma série de fatores considerados atrativos:
os juros elevados aumentavam a rentabilidade dos investimentos locais;
muitas ações eram vistas como baratas em comparação com outros mercados;
havia maior interesse global por países emergentes;
e havia mais dinheiro circulando no mercado financeiro internacional.
O cenário internacional também mudou
Além dos fatores internos, a piora do cenário internacional aumentou a cautela dos investidores. A escalada das tensões no Oriente Médio intensificou a busca por ativos considerados mais seguros, como o dólar, o ouro e os títulos do Tesouro dos EUA.
“Não existe um único culpado. O investidor estrangeiro está saindo do Brasil em ritmo acelerado, os juros continuam altos, a renda fixa segue mais atrativa e o aumento das tensões geopolíticas reduziu o apetite global por ativos de risco”, afirma economista e consultora financeira Isabel Abreu.
Segundo ela, embora muitas empresas tenham divulgado resultados sólidos nos últimos balanços, esse fator ficou em segundo plano. “Hoje, o mercado reage muito mais às incertezas políticas, fiscais e ao cenário internacional do que aos resultados das empresas.”
Vale lembrar que o tarifaço imposto pelo presidente dos EUA, Donald Trump, ao Brasil, somado ao acirramento das tensões diplomáticas entre os dois países, também contribuiu para aumentar a cautela dos investidores.
Nem todos os setores sofrem da mesma forma
A queda da bolsa não afeta todas as empresas da mesma forma. Os setores mais ligados ao consumo interno costumam sentir com mais intensidade os efeitos dos juros elevados, da desaceleração da economia e do aumento da inadimplência.
Já as empresas exportadoras, que faturam em dólar ou dependem menos da atividade econômica brasileira, tendem a enfrentar melhor os períodos de turbulência.
Segundo Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, os setores mais prejudicados neste momento são o varejo e as empresas que vendem produtos e serviços não essenciais, como roupas, eletrodomésticos, móveis e veículos, além das companhias que dependem do crédito.
“Juros elevados, inadimplência e menor poder de compra pressionam a receita e as margens dessas empresas. Os bancos também ficam mais vulneráveis, principalmente por causa do aumento do risco de crédito e das provisões [recursos reservados para cobrir possíveis calotes de clientes]”, afirma. Com informações do portal G1.
