A saída de Lionel Messi não representou o fim de uma era apenas para o Barcelona. A ida do meia para o PSG foi o ponto alto de uma fuga de astros que deixou o céu do futebol espanhol bem menos imponente. Durante anos, a primeira divisão se vendeu como Liga das Estrelas.
Seus álbuns de figurinhas contavam com nomes como Zidane, David Beckham, Figo, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e, mais recentemente, Cristiano Ronaldo, Sérgio Ramos e Neymar, além do argentino. A edição 2021/22 começou na semana passada sem esta badalação. E o país tenta entender seu novo espaço na divisão de forças da Europa.
Não foram só as estrelas que deixaram a Espanha. Seu domínio na Liga dos Campeões, principal competição continental, ficou para trás. Os últimos dez anos ilustram bem este movimento. Das edições de 2011/12 até a de 2016/17, o país sempre teve dois representantes nas semifinais.
Mais: de 2013/14 até 2017/18, monopolizou os títulos através da dupla Real Madrid e Barcelona, com direito a duas finais entre Real e Atlético. Nos últimos três torneios, sequer foi à decisão. Em 2019/20, chegou ao ponto de não contar com nenhum semifinalista.
Esta queda impactou o ranking de ligas da Uefa, que leva em consideração os resultados dos clubes nas cinco edições anteriores da Liga dos Campeões e da Liga Europa. Após oito temporadas, a Espanha perdeu a liderança para a Inglaterra.
No ranking de clubes, a La Liga chegou a ter três dos quatro primeiros entre 2015/16 e 2019/2020. Em 2020/21, caiu para dois, sendo que Real e Barça só estão lá pelas boas campanhas feitas até a metade deste ciclo de cinco temporadas. Num recorte só das duas mais recentes, a dupla não aparece entre os cinco melhores. Ou seja: estão em tendência de queda.
Fotografias do passado
O domínio nas premiações anuais dos melhores jogadores do mundo também virou fotografia do passado. A última década viu os atletas da La Liga dominarem o título de 2011 até 2019. Lewandowski, do Bayern de Munique-ALE, acabou com a sequência. E dificilmente o eleito deste ano virá de um clube espanhol.
Em 2012, num feito inédito, a seleção de melhores por posição foi formada por 11 da La Liga. Até três anos atrás, o país sempre teve maioria no time da Fifa. Em 2019, este número caiu para quatro. Na edição seguinte, para dois.
Assim como no ranking de federações da Uefa, quem tomou para si o posto de torneio que mais premia jogadores foi a Premier League. De três representantes na seleção de 2019, subiu para quatro em 2020. Mesmo número que a Bundesliga, cujos resultados são dependentes do brilho do Bayern de Munique.
Para o jornalista do diário espanhol “As” Fernando Kallas, esta troca entre espanhóis e ingleses não é coincidência. Ele vê um reequilíbrio de forças no continente.
“Sendo a Premier League a mais rica do mundo, não era normal que ficasse tanto tempo sem ganhar um título de Champions. Inclusive sem ter equipes até nas semifinais”, observa Kallas. “Olha o que está acontecendo neste ano de pandemia. O Lukaku sendo comprado por 114 milhões de euros (pelo Chelsea). O Jack Grealish, por 116 milhões de euros pelo City, que está disposto a pagar 150 milhões de euros pelo Harry Kane. Só a Premier League e o PSG estão contratando.”
Má gestão
No caso do Barcelona, a perda de poder econômico é fruto de má gestão. Em cinco temporadas, o endividamento subiu de 405 milhões de euros para 1 bilhão de euros. A situação do Real é diferente. O clube pôs o pé no freio nas contratações para focar na reforma do Santiago Bernabéu.
Mas os dois e todo o futebol espanhol sentem os efeitos da pandemia. Estudo da consultoria PWC estima que os clubes deixaram de ganhar até 2 bilhões de euros nas duas últimas temporadas.
Ao invés de unirem forças, estão brigando. Primeiro, com a tentativa de Barça, Real e Atlético em fundar a já fracassada Superliga europeia, que beneficiaria os grandes clubes do continente em detrimento do restante.
Agora, o racha é em torno do acordo com o fundo de capital CVC. O contrato prevê um aporte de 2,7 bilhões de euros em troca de quase 11% das receitas com TV por 50 anos. Foi aprovado pelas duas primeiras divisões, mas os três grandes votaram contra e não farão parte. Consideram que abrir mão deste percentual por meio século é um risco alto demais.
