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Seis anos da morte de Cau

Imagem mostra o corpo do reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo sendo velado no hall da reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina em 2017. (Foto: Jair Quint/Agecom/UFSC)

No dia 2 de outubro, a morte de Luiz Carlos Cancellier, ex-reitor da UFSC, completou seis anos.

O suicídio de um homem bom e honesto – que se matou pela pior das vergonhas, a vergonha de quem não fez – foi uma dessas marcas indeléveis que separam duas épocas: a era de ouro do lavajatismo e a sua decadência e queda.

Não será nunca demasiado lembrar: Cancellier, o Cau, reitor de uma das mais importantes universidades do país, foi acordado de madrugada por uma dezena de policiais armados – abriu a porta do modesto apartamento, e um deles lhe deu voz de prisão.

Os policiais tinham instruções para não falar de justificativas ou razões: só tinham a ordem judicial de levá-lo à sede da PF em Florianópolis. Transpirando por todos os poros, aturdido, foi conduzido ao camburão, para espanto dos vizinhos e sob as luzes das televisões, convivas do espetáculo em tempo real e em cores para todo o Brasil.

Na PF, Cau soube das razões daquilo tudo: era acusado – ele e mais seis colegas da Universidade – de obstruírem a justiça em uma investigação sobre o desvio de verbas de um programa de ensino a distância.

Cau foi ouvido durante oito horas na PF e ele e seus colegas depois enviados à penitenciária, na ala de segurança máxima. Ali, foi despido e durante 40 minutos zoado por carcereiros e presos. Vestiram-no com o macacão laranja de presidiário, algemaram suas mãos, puseram-lhe correntes nas pernas – como se vê nos filmes americanos. Vasculharam o seu corpo nu em revista íntima, para ver se não havia escondido armas ou drogas.

Imagens de Cancellier circularam exaustivamente, dias inteiros, em jornais e tevês, acusado de ser o principal mentor de um desvio de 80 milhões de reais. Os diligentes agentes policiais que o levaram à prisão haviam confundido o valor total do programa investigado em mais de 10 anos com o valor do suposto desvio!

Em 2 de outubro de 2017 Cancellier se projetou no vazio do alto de um andar superior de um shopping. Já tem seis anos do episódio da prisão e da morte de Cancellier. Hoje em dia, não resta a menor dúvida de sua total inocência.

Não era caso de flagrante. Cancellier tinha endereço conhecido de moradia e trabalho. Não portava armas, nunca se envolveu em escândalos. Exatamente como seus colegas presos. Os agentes do Estado, delegada, procurador do MPF, juíza federal, mais 108 servidores da PF da operação espalhafatosa não se perguntaram se não haveria em tudo aquilo exagero, exorbitância. Atiraram primeiro e depois perguntaram quem vinha lá.

A Lava Jato afundou de vez no episódio da UFSC e na morte de Cau – operação desmedida e desnecessária, onde tudo excedeu os justos limites, tudo sucumbiu nas tropelias da ordem legal.

Nestes seis anos, a honra de Cancellier foi resgatada, em homenagens Brasil afora, em documentários, em artigos e livros, na voz de personalidades como Lula, Gilmar Mendes e Elio Gaspari. Em breve estará em cartaz uma peça de teatro, no Rio, e um filme, sobre a saga trágica do ex-reitor.

Preso, enxovalhado, vítima da mentira e da força bruta, hoje Cancellier é uma vigorosa referência na luta contra o arbítrio.

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