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Seja qual for o eleito para comandar o Brasil, o próximo presidente será o mais enfraquecido das últimas décadas; veja por quê

Interferência dos EUA e força do Congresso devem enfraquecer próxima Presidência. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

A perspectiva de interferência externa, no caso, a dos Estados Unidos, é o traço que distingue a eleição presidencial de 2026 em relação a todas as outras anteriores realizadas com regras democráticas. A disputa deste ano também consolidou o enfraquecimento do Poder Executivo frente ao Legislativo e ao Judiciário, sinalizando para um presidente enfraquecido no próximo mandato. O processo de fragilização do Executivo, contudo, iniciou-se nas eleições de 2014.

A soma desses dois fatores indica uma governabilidade difícil tanto para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, caso ele se reeleja para um quarto mandato, quanto para seu principal oponente, o senador Flávio Bolsonaro, na hipótese de vitória.

Desde que voltou à Casa Branca, o presidente americano Donald Trump lançou uma releitura da Doutrina Monroe, em que estabeleceu como objetivo explícito da política americana a hegemonia dos EUA sobre as três Américas. Um vídeo postado recentemente pelo Departamento de Estado nas redes sociais frisa que o “domínio americano” sobre a região “jamais será questionado”.

Professor de política internacional da UFMG, Davisson Belém Lopes afirma que a interferência direta ou indireta dos EUA nos processos eleitorais na América Latina se tornou regra com Trump. “O peso do fato externo nesta eleição presidencial é maior do que jamais foi”, afirmou o diretor-geral da Fundação FHC, Sergio Fausto, observando que, do ponto de vista eleitoral, uma ação americana ofensiva a favor de Flávio Bolsonaro pode se tornar contraproducente. Lula tem explorado a carta da soberania em sua campanha e elevado o tom contra os EUA. No dia 13 de agosto, o governo brasileiro comunicou que irá ativar a lei de reciprocidade em resposta ao tarifaço decidido por Trump.

Um desdobramento possível, em caso de reeleição, poderá ser o não reconhecimento do resultado eleitoral pelos EUA, na hipótese de Flávio contestar a derrota. As avaliações de especialistas divergem sobre as consequências que este fato poderá ter. Para Davisson Lopes, pode alimentar uma desestabilização política de Lula. “Será uma situação sem paralelo”, comentou.

Na opinião de Claudio Couto, professor da FGV, a conjuntura interna dos EUA pode refrear o ímpeto intervencionista. Trump tende a se enfraquecer depois das eleições de meio de mandato, em novembro. “Há uma divisão latente no governo americano entre uma linha mais pragmática, de conter a influência chinesa na região, e uma linha mais ideológica, de acreditar que isso só é possível com a implantação de governos alinhados”, comentou Fausto.

O fortalecimento do Congresso perante a Presidência independe do resultado das urnas, e especialistas consideram altamente improvável que Lula consiga alterar o avanço do Legislativo sobre o Orçamento. “A perda de poder presidencial que começou no embate entre Dilma Rousseff e Eduardo Cunha em 2014 está agora desenhada e consolidada, e a disputa pelo Congresso ganhou uma proeminência imensa”, afirmou Couto.

Para ele, chama a atenção o desinteresse dos partidos do Centrão em apoiarem formalmente as principais candidaturas presidenciais. “É uma ausência sintomática de qual é a disputa de poder mais proeminente”, comentou.

Em um cenário de reeleição de Lula, Fausto acredita que o presidente estará emparedado pela distância ideológica em relação a um Congresso de direita, por um lado, e por uma situação fiscal caminhando para uma crise, pelo outro. Para ele, a promessa de Lula de questionar a amplitude das emendas parlamentares é retórica de campanha.

Recentemente, Lula também se reaproximou do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que, em abril, comandou a sessão que rejeitou a indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal.

Na hipótese de chegar à Presidência, Flávio Bolsonaro terá dois desafios: pauta e liderança. “Como sua primeira questão é o indulto ao pai, um governo Flávio implicaria de imediato em uma crise institucional, porque ele precisaria pressionar o Supremo com a ameaça de impeachment”, diz Fausto.

Para Couto, Flávio terá problemas para exercer a liderança caso se torne presidente em dois níveis. “Dentro do núcleo da direita, ele não é líder na própria família. Em relação à sua base, ele não tem o apoio social que o pai tem e nem o mesmo lastro na extrema-direita internacional do irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro.”

Já em relação à elite empresarial e parlamentar, Flávio não é respeitado como articulador do mesmo modo como foram outros presidentes. “Ele não tem o mesmo diálogo que tinham Fernando Henrique Cardoso, Michel Temer ou mesmo Lula”, diz Couto. (Com informações do Valor Econômico)

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