Devido à pandemia, as grandes manifestações das ativistas de lenço verde – símbolo da campanha a favor da legalização do aborto – foram transferidas para as redes sociais, com exceção do dia do debate na Câmara, quando milhares de pessoas se reuniram diante do Congresso, algo que será repetido em 29 de dezembro.
“Vamos estar nas ruas porque teremos uma festa popular. Mas o Senado é impermeável às ruas, a decisão se joga no outro lado”, disse María Florencia Alcaraz, autora do livro “Que seja lei!”, publicação que compila a história da luta pelo aborto legal na Argentina.
Os cálculos apontam entre 370.000 e 520.000 abortos clandestinos na Argentina a cada ano. Dezenas de mulheres morrem em consequência das práticas, que são ainda mais graves em um contexto de pobreza.
María, formada em Relações Internacionais, 35 anos, que fez um aborto aos 9, afirma que “a legalização é necessária porque o desespero leva a abortar de qualquer maneira”.
“Em nenhum momento me arrependi da decisão”, conta a ativista, que prefere não revelar o sobrenome. “Minha situação foi muito privilegiada, primeiro porque estou viva e segundo porque foi realizado nas melhores condições possíveis. Eu tive educação sexual entre aspas, tínhamos crenças incorretas”, conta à AFP.
Pressão
Em um país de forte influência católica e berço do papa Francisco, a pressão da Igreja é grande. Os bispos programaram uma missa “pela vida” este sábado na Basílica de Luján e convocaram outras cerimônias para este domingo (27).
“Sou católico, mas tenho que legislar para todos. E sou um católico que pensa que o aborto não é um pecado”, declarou o presidente Fernández, que apresenta o tema como uma questão de saúde pública.
Para somar votos favoráveis, o projeto inclui a possibilidade de que os profissionais de saúde apresentem uma “objeção de consciência”, um ponto questionado pela campanha por aborto legal, seguro e gratuito, que reúne mais de 300 organizações feministas.
Ao mesmo tempo, Fernández estimula outro projeto, que também será examinado pelo pelo Senado na terça-feira, que cria um “seguro de mil dias” para fortalecer o atendimento à mulher durante a gravidez e os cuidados dos filhos nos primeiros anos de vida, com o objetivo de evitar um aborto motivado por causas econômicas.
Desde 1921 o aborto é permitido na Argentina em caso de estupro ou perigo para a vida da mulher. Na América Latina, o aborto é legal apenas em Cuba, Uruguai e Guiana, assim como na Cidade do México, e é totalmente proibido em El Salvador, Honduras e Nicarágua.